Duas pessoas se encontram. O despertar começa na jornada e a jornada começa no diálogo. Ana Maia conhece Bernardo e se reconhece em Bernardo. Seria ele o espelho dela? A cada conto, um passo no mundo; no conto seguinte, um passo na jornada interior. A genialidade poética envolve vida e pensamento de tal modo que a reflexão é a tarefa dos andarilhos. Budapeste se torna no recanto meditativo: o espaço aberto para a emancipação da menor boneca russa. Uma lição de auto-conhecimento. A leveza da narrativa de Clara Baccarin lembrou-me das palavras de Van Gogh: "Eu prefiro retratar os olhos das pessoas a catedrais, pois há algo nos olhos que não está nas catedrais". A autora conseguiu traduzir, com um estilo próprio, dona de uma síntese singular, a essência do olhar feminino. A leitura faz-se envolvente pois não se trata de um olhar qualquer, mas o olhar de uma mulher especial -- palavras doces que tocam o íntimo --, mulher de coragem delicada, mulher de escolha descoberta, mulher que descostura as bordas da alma. O título do romance anuncia castelos, entretanto, certamente, dentro deste castelo estão os retratos dos olhos de duas personagens que, inquietas, incansáveis e insatisfeitas, entenderam que a vida pede, acima de qualquer viagem, por relacionamentos. Apesar das dificuldades, o relacionamento ideal, na ordem dos contos, abarca no amor, uma vez que ele próprio é a verdadeira viagem.
Duas poesias chamadas Ana Maia e Bernardo se encontraram. Deste encontro, nasceu uma narrativa que construiu castelos tropicais.