Ler Tolstói e Dostoiévski ao mesmo tempo é uma experiência e tanto. Enquanto o primeiro traz suas impressões sobre a alta sociedade russa, o outro parece querer enfatizar o quanto a vida é penosa para a população pobre, como um ciclo sem fim ou saída - falo especificamente sobre "Crime e Castigo", cuja leitura pretendo terminar muito em breve.
Mas, claro, esta análise é sobre "Anna Karenina", também um clássico da literatura russa. Esta é a primeira vez que leio uma edição dividida em dois volumes. Eles foram publicados no Brasil nos anos 1980.
Ler clássicos é sempre um desafio. E talvez, em algum momento da vida, alguém tenha te falado que a linguagem é difícil, arcaica, entre outros. Aqui, no entanto, é diferente. Tolstói tem uma escrita maravilhosa, que te cativa desde as primeiras páginas, já que ele parece fazer questão de "desmascarar" seus personagens desde o nosso primeiro contato com eles. É como se falar sobre eles já fosse uma antítese por si só. Uma hora eles são de um jeito, em outra eles adotam comportamentos totalmente diferentes. Ou seja, são completamente humanizados.
Durante este primeiro volume, eu começava odiando um personagem em um determinado capítulo para no outro repensar tudo o que eu achava sobre ele. Todos são falhos e nos surpreendem a cada virada de página. Tolstói nos apresenta a eles desta forma: pouco a pouco e fazendo questão de nos impressionar.
É interessante destacar também a habilidade de Tolstói para contextualizar o leitor na Rússia do século XIX. Tudo é muito bem detalhado, sejam as descrições de vestimentas, ruas, mansões e até mesmo os gestos. E ele fala sobre tudo: política, economia, sociedade, proletariado, camponeses, ricos, militares e, claro, mulheres. Cada personagem se enquadra em alguma dessas categorias.
A personagem título, por exemplo, demora a ser apresentada para nós. Mas, assim que chega, ela rouba a atenção por onde passa por sua beleza e vivacidade. Inclusive rouba a nossa. No entanto, isso é apenas um olhar estrangeiro sobre uma mulher atenciosa com todos, mas esvaziada por dentro. Anna Karenina não casou por amor e paga o preço por isso. Até a chega do galanteador Vronski. Galanteador seria a primeira impressão. Acredito que não posso continuar a defini-lo dessa forma, mas ainda não sei se o que pensar de fato. Quero descobrir até aonde ele vai me levar - no segundo volume/fim do livro.
A narrativa não é centrada apenas nesse romance histórico, avassalador e revolucionário. Imaginem só, no século XIX, uma personagem feminina afirmar para o marido, com todas as letras, - representante do patriarcado sufocante e de toda a sociedade machista - que o trai e que não tem vergonha de negar tal feitio. E de que deseja, sim, ser livre para seguir sua vida com quem realmente ama. Paixão? Loucura? Egoísmo? Tudo isso e mais um pouco, porém, Tolstói nos mostra que não é fácil julgar, apesar de julgarmos inconscientemente. Acho que é inevitável não tomar partido - para logo ser surpreendida por achar ter julgado errado. Chega a ser cômico como somos "enganados" por nossas convicções.
Mas o livro nos apresenta outros personagens extraordinários, como o irmão de Anna, o super carismático, amigável e don juan Oblonsky; o tímido, honrando, porém, de opiniões políticas e sociais contestáveis, Liêvin; a romântica e ingênua Kitty; o burocrata e marido de Anna, Alexei Karenin; entre outros personagens da elite que se destacam por suas opiniões ora revolucionárias ora completamente conservadoras.
Se eu fosse tentar encontrar um ponto em comum para todos eles, diria que Tolstói, por meio desses personagens, nos apresenta diversas fases do amor: a descoberta, a paixão, a concretização, e o fim - e provavelmente muitas outras fases. E todos parecem buscar uma espécie de renascimento, de uma segunda chance. Todos eles passam por algum tipo de calvário, até mesmo a criança, filho de Anna Karenina.
O que pode, talvez, "desanimar" a leitura são os capítulos que focam exclusivamente em colheitas no campo e nos dramas mais práticos e burocráticos de Liêvin. Eles são realmente longos e a divisão em parágrafos extremamente extensos tornam a leitura cansativa. Em defesa de Tolstói, talvez esses capítulos sirvam para nos mostrar o quanto Liêvin encontra-se preso em uma rotina que ele deseja sair, mas não não consegue, ainda que ele ache tudo muito instigante para o seu corpo e alma. E as discussões sobre classe são super válidas!
E como esquecer as questões sobre o feminino, sobre o lugar da mulher na Rússia dessa época?! Infelizmente, elas são encabeçadas majoritariamente por homens, mas não deixa de ser super estimulante e reconfortante ver como alguns deles defendiam a liberdade e a igualdade de direitos para as mulheres - inclusive o direito de estudar e exercer uma profissão.
Estou animada e curiosa para continuar a a leitura e descobrir o seu desfecho.