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    Uma praça em Antuérpia -

    Luize Valente

    Record
    2015
    364 páginas
    12h 8m
    ISBN-13: 9788501103178
    Português Brasileiro
    4.5
    235 avaliações
    Leram315Lendo9Querem317Relendo1Abandonos2Resenhas44
    Favoritos56Desejados317Avaliaram235

    Não é exagero dizer que Luize Valente - voz referencial do romance histórico contemporâneo no Brasil - enreda de tal forma o leitor nesta trama que ele de súbito, ainda no início, vê-se saborosa e irremediavelmente preso ao livro, perseguidor fanático de seu final. São poucos os escritores capazes, hoje, de manejar o tempo - o ir e vir seguro em quase um século - como Luize. Com prosa ágil e visual, e amplo domínio da técnica, a autora - cuja obra de estreia, O Segredo do Oratório, já causara forte impressão, sucesso de crítica e público - honra e supera a expectativa acerca deste segundo livro, ao conceber aqui uma narrativa que costura capítulos curtos e dinâmicos de maneira que tenham desfechos instigantes, que progressivamente amarram o leitor em novas e ainda maiores dúvidas, ansiedades e urgências. Difícil parar de ler. Entretenimento de fina qualidade, este romance desafia e vence - com sobras - a tendência corrente (cafona e aborrecida) segundo a qual diversão é incompatível com literatura. E que personagens! Dentre um punhado de figuras inesquecíveis, temos Olivia e Clarice, enormes, gêmeas cuja união fraternal resultará em que afinal sejam - só a leitura revelará como - uma só pessoa. O modo, aliás, como o parto delas é tecido - com a mãe morta - alcança o estado da arte e emociona como sói à grande literatura. E eu poderia encher este texto com exemplos. A compor - tão ambicioso quanto plenamente realizado - o projeto literário de Luize Valente, impõe-se a reconstituição da desgraça imposta pelo nazismo aos judeus na Europa, razão pela qual muitos deles viriam fazer a vida no Brasil. A literatura de Luize - o modo original como ergue sua carreira autoral até aqui - é, aliás, alicerçada ao mesmo tempo na memória acumulada de séculos de um povo e na identidade brasileira que a comunidade judaica soube construir para si neste país. É impressionante, registre-se, a forma como a escritora retrata a chaga do nazismo na miudeza do cotidiano, na intimidade das famílias alemãs e europeias, com bárbaros desdobramentos em Portugal, no lar de Clarice e Olivia, de onde a narrativa parte pra ganhar o mundo e o Brasil. O que temos aqui é uma grande história, escrita sob a luz do admirável engenho criativo - tudo isso sobre o solo firme de consistente pesquisa e de poderoso conhecimento histórico. É o que explica o caráter orgânico deste romance, em que nada é artificial. Se o leitor procura uma história forte e universal, com personagens - de construção só possível por quem percebe e compreende o humano - pelos quais se envolver, narrada século adentro com ritmo cinematográfico, este Uma Praça em Antuérpia é o livro.

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    Resenhas (44)Ver mais
    Renata Cereser Sogi picture
    Renata Cereser Sogi06/06/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Amores, desamores e a intensa fraternidade em tempos de guerra.

    . “Um homem nunca sabe quando a guerra acaba. Diz, Olha, acabou, e de repente não se acabou, recomeça, e vem diferente, a puta, ainda ontem eram floreios de espada e hoje são arrombações de pelouro, ainda ontem se derrubavam muralhas e hoje se desmoronam cidades, ainda ontem se exterminavam países e hoje se rebentam mundos.” - José Saramago (Memorial do Convento). Em uma cobertura de um quarto de hotel em Copacabana no Rio de Janeiro, totalmente alheia às comemorações de réveillon do ano 2000, a octogenária Olívia Braga de Almeida aprecia uma foto antiga quando é surpreendida por sua neta - também chamada Olívia e apelidada de Tita - que a questiona sobre a foto, nunca antes vista. Na foto, datada de 4 de fevereiro de 1940, sua avó Olívia aparece em uma praça em Antuérpia, jovem e grávida, ao lado de um homem e um menino desconhecidos. Em uma outra foto da mesma época, Olívia está ao lado do marido e do filho que Tita bem conhece. É neste cenário que um segredo de sessenta anos é revelado: Olívia é, na verdade, Clarice, a mulher da foto de Antuérpia, irmã gêmea de Olívia, com quem trocou de identidade em sua fuga durante a Segunda Guerra Mundial. É a partir desse ponto que a história em UMA PRAÇA EM ANTUÉRPIA que passamos a viajar pelo tempo, em uma narrativa não linear, a partir das memórias de Olívia/Clarice. A fotografia da família na praça em Antuérpia remonta episódios da vida de Clarice que faz Tita viajar por gerações e passa a conhecer quem realmente é a sua avó. Logo no início do livro passamos a ser detentores de um dos fatos principais (talvez o principal) para o desenrolar da história, e é a partir desse ponto que a trama segue buscando os porquês de todo o ocorrido, que levou a troca de identidade entre as irmãs. Engana-se quem achar que essa revelação provoque qualquer desinteresse ao leitor. Ao contrário, o fato apenas aguça o interesse do, pois o enredo é instigante e os personagens extremamente atrativos. A narrativa é construída de uma forma simples, mas meticulosa e inteligente: são capítulos breves com ganchos impacientes, que nos levam de imediato ao próximo, fazendo com que a leitura ganhe um ritmo mais acelerado. Além disso, a narrativa também apresenta elementos típicos de um texto televisivo, com um poder de descrição quase cinematográfico. Embora a figura de Hitler seja comumente explorada em obras que tratam da Segunda Guerra Mundial, são outros os personagens históricos que ganham foco na narrativa de Luize Valente: as figuras de António Salazar e Francisco Franco, líderes de Portugal e Espanha, respectivamente, que aparecem em destaque, sendo retratados como figuras relevantes para melhor entender tudo o que ocorre com Clarice e sua família. Outra figura em evidência é a de Aristides Sousa Mendes, um cônsul português que, contrariando as ordens do ditador Salazar, que durante três dias e três noites, concedeu diversos vistos de entrada em Portugal a refugiados, principalmente de origem judaica, que fugiam da perseguição nazista. Apesar de ser um romance histórico, o que encontrei de mais instigante nessa obra foi o seu não-didatismo, propondo ao leitor que monte as peças de uma estória dentro da História, que envolve tempos e espaços diversos à medida que a leitura avança. Valente consegue transferir os sentimentos dos personagens para o leitor, pois é profunda a relação que sentimos com eles, como se os conhecêssemos desde sempre. Bem... leitores são um amontoado de experiências e aprendizagem e, por essa razão, sempre lemos uma obra tendo em conta as leituras anteriores. Neste caso, a comparação com outros livros com a mesma temática é inevitável. O ideal seria avaliar este livro sem ideias pré-concebidas, pois é mais que apenas outro livro sobre o holocausto, é uma história de amor incondicional que transformou duas pessoas em apenas uma. Embora tenha um clima novelesco, açucarado e ainda pouco crível em algumas passagens, de forma alguma isso comprometeu a qualidade do livro. O humanismo das situações e o carisma dos personagens nos envolvem e nos levam à outra época, outra realidade, e isso compensa qualquer excesso que possa ter sido cometido. É um romance daqueles que te pegam pelo braço e leva a outra realidade, mexendo com nossos sentimentos e, mesmo sabendo o final da história logo nas primeiras páginas, torcemos pelos protagonistas como se nossa vontade pudesse fazer alguma diferença no desfecho. Mas é justamente dessa sensação de “tarde demais” que Luize Valente extrai o elemento surpresa para finalizar o livro. Ao término da leitura, fica a tentativa quase insana de impedir que aquelas vidas desapareçam de nossa memória, e seu final trouxe uma paz que eu e a protagonista precisávamos.

    7 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.5 / 235
    • 5 estrelas61%
    • 4 estrelas27%
    • 3 estrelas11%
    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas0%
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    Luize Valente

    Nascida no Rio de Janeiro, de ascendência portuguesa e alemã, Luize Valente é escritora e documentarista. Formada em Jornalismo, pós-graduada em Literatura Brasileira pela PUC/RJ, sempre foi apaixonada por História, com especial fascínio por temas ligados ao Judaísmo e aos refugiados em tempos de guerra. Autora dos romances históricos SONATA EM AUSCHWITZ (2017), UMA PRAÇA EM ANTUÉRPIA (2015) e O SEGREDO DO ORATÓRIO (2012), todos publicados pela Editora Record. É autora, com Elaine Eiger, do livro "Israel: Rotas e Raízes" (1999) e dos documentários "Caminhos da Memória: A Trajetória dos Judeus em Portugal" (2002) e "A Estrela Oculta do Sertão" (2005), ambos exibidos em vários festivais no Brasil e no exterior - como a Mostra no Lincoln Center, em Nova York, e nos Festivais de San Diego, Jerusalém, entre outros - e na televisão, constituindo importantes inventários do Judaísmo no mundo. Com o primeiro ganhou o Prêmio de Melhor Direção de Documentário no New York Independent Film Festival de 2003 e com o segundo ganhou o Prêmio de Melhor Documentário no Festival de Cinema Judaico de São Paulo de 2005 . A partir de 2012, envereda pela escrita ficcional, publicando na Editora Record o romance histórico "O Segredo do Oratório", com o qual foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Foi traduzido e publicado também na Holanda pela Nieuw Amsterdam (2013). Em 2015, foi lançado, igualmente pela Editora Record, seu segundo romance histórico, "Uma Praça em Antuérpia", o qual também atravessou o Atlântico: a edição portuguesa ficou a cargo da Editora Saída de Emergência. Em 2016, escreveu sua primeira peça teatral, "O Mundo Indecifrável", em fase de pré-produção, a ser dirigida por Gilberto Gawronski. Em 2017, lança seu terceiro romance histórico, "Sonata em Auschwitz", também publicado pela Editora Record e com edição previamente vendida para a portuguesa Editora Saída de Emergência, prevista para janeiro de 2018. Também em 2017, os direitos de adaptação cinematográfica e televisiva de seus dois primeiros romances, O Segredo do Oratório e Uma Praça em Antuérpia, foram adquiridos pelos produtores Breno Silveira (diretor de "Dois Filhos de Francisco" e "Gonzaga: de Pai para Filho") e Paula Fiuza (diretora do documentário "Sobral"). Site | luizevalente.com facebook | LuizeValenteEscritora instagram | LuizeValente

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    Luize Valente