Um Furto, novela de Saul Bellow (1915-2005) publicada em 1989, tem muito a ver com psicologia e pouco a ver com polícia, embora tenha um detetive particular contratado para resolver o caso. Tem algum suspense: queremos saber quem roubou o caríssimo anel de esmeralda e diamantes de Clara Velde, executiva da moda em Manhattan na faixa dos quarenta anos e com três filhas pequenas.
Ela está no quarto casamento, com Wilder, que considera um homem bonito mas inútil. No fundo, continua apaixonada por Ithel Regler, ou Teddy, um especialista em assuntos governamentais estrangeiros, com quem teve um longo relacionamento no passado e a levou à beira do suicídio uma vez. Foi Teddy que a presenteou com uma joia caríssima, o anel que desapareceu e que tem enorme valor simbólico para ela, não apenas monetário.
Clara suspeita que o roubo foi praticado por Frederic, o namorado haitiano de Gina, moça austríaca de família distinta que trabalha e mora em sua casa; ela é uma “au pair”. Gina cuida das filhas de Clara, que adoram a moça. Com a suspeita tudo fica complicado então, especialmente se a moça tiver de ser demitida, e Bellow nos mostra, até demais, como é explosiva a mente de Clara, coisa que vinha fazendo desde do início da novela.
O Furto envolve dilemas morais, existenciais e sentimentais, mas não empolga tanto (falo por mim) porque uma personagem como Clara não cria lá muita empatia com o leitor. Além disso, a narrativa só começa a ficar interessante mesmo quando o anel desaparece pela primeira vez (e o seguro é acionado) e depois, quando é furtado (e aí já não há seguro para cobrir o prejuízo que já foi coberto, claro). Mas isso demora muito para ocorrer, praticamente quando já lemos 2/3 da novela.
Lido em 25 e 27/04/2020.