Comecei a ler Júlio Verne com a expectativa errada. Tomei "Viagem ao centro da Terra" por um clássico aos moldes de Stendhal, Hugo, Balzac e Flaubert e acabei me decepcionando na época. Nesse ano, decidi ler "Vinte mil léguas submarinas", ciente do que esperar, e adorei o romance. Então, decidi ler outro de seus maiores livros e, novamente, consegui ter muito proveito - ainda lerei mais do autor.
Neste romance acompanhamos a jornada de Phileas Fogg, um cavalheiro excêntrico e metódico, e seu criado, Jean Passpartout, que se lançam em uma jornada de volta ao mundo em 80 dias, a fim de que Fogg vença uma aposta contra um amigo acerca da possibilidade dessa viagem ser feita em tão pouco tempo (para os padrões do fim do século XIX).
Dessa forma, os personagens viajam em navios, trens, transatlânticos, trenós e até mesmo em elefante, passando por diversas localidades que os colocam em situações que são, ao mesmo tempo, perigosas e cômicas: é um livro leve e bem humorado. Além disso, em cada novo país os personagens se deparam com uma geografia e cultura diferentes, as quais proporcionam a eles e ao próprio leitor um aprendizado acerca de outros povos. Em certas ocasiões é evidente que há uma depreciação do estrangeiro por parte do narrador, mas não vejo isso como algo negativo, tendo em vista que se trata de um livro publicado em 1873 por um autor europeu.
Um complemento à aventura é o inspetor de polícia chamado Fix, que passa a perseguir a dupla principal motivado por um suposto assalto ao banco da Inglaterra cometido por Fogg. O policial é forçado a também dar uma volta ao mundo para persegui-los em surdina, se deparando com eles em várias ocasiões, o que gera momentos de leve suspense e humor, além de algumas inverossimilhanças narrativas. Talvez os mais críticos digam que há muita inverossimilhança nos livros de Verne, e de fato elas existem, porém, a meu ver, estão em harmonia com a narrativa de Verne, pois, sendo a aventura vivida por dois personagens excêntricos à sua maneira - um cavalheiro que faz todas as refeições no mesmo horário, todos os dias, e seu criado submisso como um robô - torna-se natural que haja coincidências e situações grotescas criadas pelo autor a fim de explorar o potencial picaresco dos seus personagens e da sua narrativa. Phileas Fogg, Passepartout e Fix não são personagens de um livro do realismo.
Nesse sentido, Verne também sabe usar a ironia e a caricatura a seu favor. Há um momento em que os personagens são agredidos em uma manifestação política e, ao questionarem
se se tratava de eleição para general, surpreendem-se com uma eleição para "juiz da paz". Confesso que ri muito nessa hora.
Enfim, é uma aventura muito prazerosa de ser vivida pelo leitor, o que me leva a garantir aos seus leitores que, apesar de a volta ao mundo durar 80 dias, sua leitura não durará mais do que uma semana.