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    Na dobra do dia

    Marcelo Moutinho

    Rocco
    2015
    232 páginas
    7h 44m
    ISBN-13: 9788532529817
    Português Brasileiro
    3.7
    14 avaliações
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    Uma janela na Praça Tiradentes, as reminiscências trazidas pelo casario do subúrbio, o anônimo que maneja uma pipa invisível, todos os dias, na esquina da Rua Mem de Sá. O Rio de Janeiro é cenário primordial para Na dobra do dia, primeiro livro de crônicas de Marcelo Moutinho, autor cuja delicadeza e zelo com a palavra desenham um estilo próprio, já evidente em três elogiados volumes de contos. Ao adotar o universo carioca como ponto de partida para sua lente de cronista, retoma um traço um tanto esquecido nos relatos atuais do gênero. Fazendo jus à tradição de João do Rio e Paulo Mendes Campos, Machado de Assis e Rubem Braga, Moutinho persegue as miudezas, as marcas ao rés do chão, a matéria ordinária dos dias — não apenas banal, mas traiçoeira. Cria relatos de lirismo ligeiro e de assombro, mas também registros atentos de costumes e personagens, fissuras na ordem do mundo, ironias ocultas no vaivém de encontros e desencontros, diapasões do cotidiano. Não à toa, Na dobra do dia é dividido em duas partes — “Pequenos amores da armadilha terrestre” e “As ruas pensam”, frases retiradas de Paulo Mendes Campos e João do Rio, respectivamente. Quando não são as pulsações das ruas, é o espaço doméstico, com suas ciladas, que invade os textos. Os mistérios da casa vazia, o amor desmantelado, a nostalgia no chiado de um long-play. Ecos da memória — a algaravia dos carnavais da infância, a traição na escolha do time de futebol. Às vezes, as crônicas trazem também notícias de alhures. Como a chuva que cai sobre o México, invisível e desconcertante, pondo “um enfeite qualquer na tristeza”. Ou as semelhanças entre quem foi menino durante a ditadura militar, no Brasil e em outros países da América Latina. Como no texto que dá título ao livro, Moutinho investe no espaço fugidio, na “hora imprecisa”, no instante em que “a cidade é borda”. Traço inequívoco de sua literatura, a melancolia dá o tom dos relatos. Mas também um humor fino e surpreendente, forjado na descontração dos bares e na perspicácia dos sambas antigos, a nos lembrar que chope de verdade é com colarinho e que, sim, há botequins que encerram um universo inteiro. São páginas onde a leveza é só disfarce, a revelar: é nas cenas inusitadas, fiapos quase invisíveis na trama da cidade, que pulsa a matéria densa da literatura.

    Resenhas (3)Ver mais
    Manuella Hipon picture
    Manuella Hipon08/08/2016Resenhou um livro

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    Marcelo Moutinho

    Marcelo Moutinho nasceu em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, em 1972. É escritor e jornalista, com especialização em Comunicação e Imagem (PUC-Rio). Publicou os livros A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001). Além disso, organizou as antologias Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra, 2004), das quais é também co-autor, e a revista especial Bravo! - Literatura e Futebol (Abril, 2011).

    17 Livros
    2 Seguidores
    Rio de Janeiro, Brasil

    Marcelo Moutinho