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    Jóquei -

    Matilde Campilho

    Editora 34
    2015
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788573265934
    Português
    4.2
    1080 avaliações
    Leram1632Lendo112Querem1016Relendo4Abandonos16Resenhas104
    Favoritos207Desejados1016Avaliaram1080

    O escritor é alguém que presta atenção ao mundo, disse Susan Sontag. O poeta talvez seja alguém que, ao prestar atenção, se espanta com o mundo e, sobretudo, consegue fazer a linguagem se espantar com ele - e dar saltos. Pois este Jóquei dá muitos saltos, a todo instante. São poemas em prosa, conversas por telefone, cartas para crianças, explosões de ternura. Passeando pelas ruas do Rio de Janeiro, perseguindo carros de bombeiro pelo Brooklyn ou contemplando ondas gigantes de um balcão, sopra deste livro - como disse o crítico Gustavo Rubim, saudando sua primeira edição (Lisboa, Tinta-da-China, 2014) - um "vento de pura selvageria".

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    Renan Duarte picture
    Renan Duarte26/02/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    “Seja como for o amor ainda me faz bastante fome”

    Encontrei algumas frases aqui que estão comigo deste que eu terminei de ler.. Gostei de como Matilde escreve, misturando a aparente trivialidade da vida com aquilo que ela tem de essencial, o cotidiano com o extraordinário, pelo menos foi assim que me pareceu. Deixo aqui uns trechos que carrego comigo e um poema inteiro que eu li e reli umas três ou quatro vezes e fico pensando sobre ele (o Principado Extinto): “Quanto mais se roda em volta do amor, mas o amor se expande.” “A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo.” “Alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo.” “(...) e essa coisa da alegria ainda vai dar muito certo.” p.36-37 “é terrível existência de duas retas paralelas porque elas nunca se cruzam e elas apenas se encontram no infinito” p.57 “Você levou meu samba e meu mensageiro Você deixou os sapatos a sombra desalojada e um dialeto muito novo que devo utilizar agora para não dizer o teu nome” p.67 PRINCIPADO EXTINTO Isto é um poema fala de amor ou do medo do amor Fala da morte ou do fim da amálgama rosto voz alma e cheiro que é a morte Isto é um poema tenha medo Fala dos peregrinos que atravessam avenidas de sobretudo e óculos carregando flores invisíveis e chorando mudos Isto aqui é um poema fala da permanência inútil de um coração devastado de uma floresta devastada de uma corrida devastada logo depois do disparo da arma de 40 peças que soltou a bandeirinha e assim mesmo se desfez Isto é um poema fala da aparição do inverno fala da fuga dos albatrozes fala do punhal sobre a mesa e do absurdo do punhal feito de madeira e pedra sobre a mesa do jantar Fala do poder da erosão que afinal incide sobre pele e nervo e osso e olho Fala do desaparecimento Fala do desaparecimento Claro que é um poema fala do toque de saída no colégio de Île de France e das 39 saias das meninas esvoaçando sem vontade na direção do cais de ferro Fala do pânico do corpo que esbarra em si mesmo no espelho pela manhã e do urro silencioso que nenhum vizinho escuta mas que ainda assim reverbera sem dó até a hora final fala do vômito que advém dos gestos repetidos prolongados assim ad astra até que o sono apague tudo Fala da palavra saudade ou da palavra terremoto fala do olho que tudo via deixando lentamente de ver até mesmo a cara de Jack Steam o porteiro da loja de discos onde toca a canção de Chavela Nada mais no mundo importa Isto é que é poema Fala do cheiro das flores e da injustiça da existência das flores na cidade Fala da dor excruciante meu bem excruciante que faz até desejar o fim do poema o fim da palavra amor que após o disparo se espelha apenas na palavra loucura. p.77-80 “Enterro-me noutras clareiras para que assim possa escapar-me da minha própria ideia de amor. É que eu tenho, como alguém disse, um amor descrito a garatujas sobre folhas de amendoeira.(…) É, um homem guarda poemas porque sabe que em qualquer momento vai ter que fazer-se à corrida: subitamente tudo arde e então a única possibilidade é o desvio.” p.83 “Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário” p.91 “É que é na terra que está a consciência do mundo, e é preciso escutar o seu ruído para agir em verdade”p.92 “Rendição quer dizer a desistência do coração de pedra, acho. Quando éramos pequenos a bondade parecia um gesto mais natural de todos, fácil, o movimento perene - agora quase tudo supõe uma rendição.”p.99 “Seja como for o amor ainda me faz bastante fome” p.127

    107 curtidas

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    Avaliações

    4.2 / 1080
    • 5 estrelas39%
    • 4 estrelas35%
    • 3 estrelas19%
    • 2 estrelas6%
    • 1 estrelas1%
    Matilde Campilho profile picture

    Matilde Campilho

    Matilde Campilho é natural de Lisboa, cidade onde estudou literatura e história da arte. No ano de 2010 mudou-se para o Rio de Janeiro, no Brasil, onde ficou a viver por três anos. Publicou em diversas edições brasileiras e regressou a Portugal há alguns meses. Jóquei é o seu primeiro livro.

    3 Livros
    64 Seguidores

    Matilde Campilho