Admirada e reverenciada pelos antigos gregos e romanos, execrada pela igreja católica da Idade Média e mal-compreendida no Renascimento, a religião do Egito - com sua multiplicidade de deuses, demônios, gênios e animais venerados com um ardor espantoso - ressurgiu a partir da decifração dos velhos hieróglifos.
Os Deuses do Egito -
Claude Traunecker
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Lendo recentemente o livro Os Deuses do Egito, de Claude Traunecker, desfiz todo um conjunto de preconceitos sobre a religião egípcia que construi ainda de minha época como religiosamente intolerante. Sua leitura foi bem esclarecedora, pois o que tinha como ideia da religião egípcia é que ela era sempre uma oscilação entre o monoteísmo e Akhenaton e o politeísmo dos sacerdotes. Claro que muitos pensadores ajudaram a reforçar essa lista de enganos, como Marx, Voltaire e Adorno. Religiões modernas de base egípcia, de certo modo, também me ajudaram a manter o preconceito firme, como os rosacruzes (digo de alguns de seus membros que, acredito eu, tenham compreendido errado a própria doutrina) e os kemetistas. Essas religiões me enchiam de dúvidas, como o fato de os egípcios serem politeístas e monoteístas ao mesmo tempo. Porém, ao me aprofundar nesse mundo dos deuses egípcios, e ao ler o livro de Traunecker, percebi que eles não eram politeístas, mas derivacionistas, e não eram monoteístas, mas monistas. Obviamente, trata-se de um povo com mais de cinco mil anos de história, o que não garante uma classificação segura, e o próprio autor esclarece isso. Muita coisa muda em um milênio, em cinco, então, nem se fala! Há diferença entre essas concepções da divindade? Há sim. Os politeístas acreditam na existência de deuses pessoais que personifiquem estados da natureza, sendo, portanto, proativos e passionais. Os monoteístas acreditam em um único deus pessoal, igualmente passional. Quanto aos derivacionistas, eles creem que os deuses são representações de forças advindas de um ser primordial, Absoluto, para o qual não há distinções entre pessoalidade e impessoalidade. E eles eram monistas, ou seja, não é um deus único que governa todas as coisas, mas uma energia ou força, pessoal ou não, que a tudo dá origem. Justamente, um tipo de pensamento estranho para o mundo grego, mas bastante próximo do Ser dos filósofos clássicos, e do Dharma-Kaya dos budistas. A criação nada mais é que a contemplação de um estado primitivo e desordenado que, num fenômeno de emergência, é levado instantaneamente ao nível e ao estado consciente. Assim, Num, O Oceano Latente, passa a ser Atum, que simboliza a transformação do caos latente para a ordem manifesta, e daquilo que era subjetivo para aquilo que era objetivo. Aliás, é até complicado falar de deuses na cultura egípcia. Para eles, o termo de Neter, erroneamente traduzido como deus, significava "lei", ou seja, os neter eram as 42 regras naturais do cosmos, que não podiam ser transgredidas para garantir o equilíbrio do cosmos e a felicidade de todos. Para os egípcios, de Num, o Inefável, surgiu Atum (Atem ou Atom), a Totalidade, que é a origem e o fim de toda a luz, que originou-se antes do tempo-espaço, e que tudo criou pela palavra sagrada inpronunciável (um som ou vibração inaudíveis). Essas 42 leis eram representadas por nove deuses, a que os gregos chamaram enéade, que eram: Atum (Ordem), Shu (ar), Tefnut (umidade), Geb (supefície terrestre), Nut (abóbada celeste), Auser (Osíris, a vegetação), Auset (Ísis, a consciência), Set (deserto estéril) e Nephthys (casa, templo). Essas nove forças primordiais juntas formam as 42 Leis que, pelo que percebemos, amoldam-se bem a uma cultura agrária de deserto. Além disso, o que definia o homem enquanto homem era a existência no mesmo de inúmeras partes, ou manifestações, das quais destacamos o corpo, a alma e o espírito. Segundo suas tradições, o nascimento do corpo significava o nascimento de um ser espiritual que não dependia do corpo, e que era distinto do mesmo, mas cujas ações esse ser controlava. Esse ser espiritual é quem garantia a individualidade desse corpo, e vivia com o corpo até a morte. Tratava-se, porém, de um ser metafísico, superior ou além do mundo físico, e que dividia-se em Ba, Khat,Ka, Ankh e Ab. O corpo Ba, que traduzimos como alma, e diferente da representação dos deuses, é representado por uma cegonha ou falcão com a cabeça humana (os deuses tinham corpos humanos e cabeças de animais). Esse corpo Ba fica no corpo físico até depois da morte do mesmo, até que a parte física se dissolva. Daí que vem a crença egípcia em mortos vivos como zumbis e múmias. Depois, fica rondando o local ao redor do corpo, até que o próprio corpo Ba também se dissolve, ao que os egípcios chamam de Segunda Morte. O corpo Khat é o próprio corpo físico, e o corpo Ka é a energia vital desse corpo Khat, daí o corpo físico ser chamado também de Duplo Etérico. O Ka é o que chamamos de personalidade, mas não somente isso, é também o que os chineses chamam Ch'i e os budistas japoneses de Força Vital. O corpo Ka morre com o corpo Khat, mas algo dele ainda permanece, desintegrando-se juntamente com o corpo Ba. Sua representaçã artística, geralmente, são dois braços levantados para o céu, como um desejo de união com o Num, o corpo universal. O corpo Ankh é o que traduzimos como espírito, chamado também de Cruz Ansata, símbolo da vida, por ser o espírito a própria vida. O Ankh passou depois de um tempo a designar o próprio símbolo. Finalmente, temos o corpo Ab, que traduz-se geralmente como consciência. É esse corpo Ab que vai para o submundo, para a Sala do Julgamento, e, diante de Osíris, sofre o juízo por suas ações durante a vida. Esse corpo é pesado e, se for mais leve que uma pena, passa para o pós-morte nos três mundos até uma Segunda Morte tranquila ou uma próxima existência. Se for mais pesado, o corpo Ab é devorado e levado traumaticamente a outra existência, sujeito à lei da reencarnação. Se for mais leve, antes de chegar a outra existência, o corpo Ab atravessa ainda três mundos, que são o mundo Ta (Terra), onde o mesmo pode assumir outros corpos (como nos mitos das múmias), Dwat (mundo inferior), que é a morada dos mortos e, finalmente, Nut (mundo superior) que é a morada dos deuses, e de onde o Ab podia escolher nascer mais uma vez em corpos melhores ou unir-se a almas perfeitas não mais sujeitas à lei da reencarnação - bem parecido com a ideia de iluminção do Budismo. Portanto, a religião egípcia, nessa leitura de Traunecker, que obviamente fez um recorte histórico, aproxima-se e muito de filosofias orientais como o Budismo, o Taoísmo e o Xintoísmo, de de filosofias ocidentais como o Platonismo. Vale à pena ler e conhecer essa que talvez seja a religião mais antiga da humanidade com registro escrito.
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