"Corpo arquivo" e as pulsões do imponderável
"Corpo arquivo", de Paulo Andrade, começa bem pelo título. Um corpo que comporta essências, os cinco sentidos em sinestesias tão bem delineadas pelo autor ao longo dos poemas, de forma que todos esses signos formem um arquivo, ou múltiplos arquivos, é uma das orquestrações deste livro que traz, na capa de Leonardo MAthias, um corpo condensado, ao mesmo tempo compacto e etéreo. Este segundo livro do autor, que reinventou poemas do primeiro e inseriu-os na obra, conversa com as mais antigas mitologias, como em "Corpo, linguagem": "Teu corpo é um poema mais que Euterpe, Calíope, Clio é só linguagem esse corpo miragem tão perto tão longe, paisagem oásis esfinge Leio com a língua as linhas e dobras (são tantos enigmas o teu corpo) enquanto das pétalas vermelhas aromas baunilhas exalam e minha língua como se olhos fosse procura a luz no fim do túnel A lança - punhal cego - deseja transpassar entranhar-se curva adentro-fora: conhecer cada relevo pêlo poro as metáforas do teu corpo." Neste belo poema, a Antiguidade Clássica está lado a lado com um Egito antigo e resplandecente e com a força do contemporâneo, pelas notas de metapoesia que faz de um corpo uma alteridade e "metáforas". Mas o livro não é só feito de um corpo de homem à busca - e ao encontro - de um corpo de mulher. Há o corpo das crianças, como no poema em prosa que encerra um dos capítulos, e também em outros poemas; como há o corpo dos animais (uma gata chamada Flora se intromete no livro sem pedir licença, com o oportunismo típico de todos os felinos). Reminiscências e memórias estão aqui e acolá, como em "Álbum de família" e "Inventário", abaixo: "o rolo de fumo a cachaça no balcão o cuspe denso no chão a espessa fumaça do tabaco o café na goela do velho a lagartixa fixa na parede a aranha tecendo mosca o escorpiã tramando morte: cotidiano na venda da minha mãe" Outro poema, "Genealogia da asma", trata de uma revolta de Édipo. Diz o último verso, a culminância de uma sequência que começa com "a avó que asfixia a mãe que/ sufoca a filha que afoga o filho que [...]": "Quem quiser ter mãe atente-se aos riscos". Parece uma fisgada proustiana essa tirada da asma, com a licença de que Proust não se rebelou, nem contra a mãe, nem contra a própria doença. Há um poema que, entre tantos outros, ganha uma força excepcional pelas metáforas bem conduzidas e pelo tema tratado com dureza: "Natureza morta". "Semáforo em brasa (entre a av. brasil e independência) só se vê relevos em ossos expostos entre a camisa-vestido cor ferrugem água de chuva (saquinhos de bala ao lado) verde correnteza sem rosto atropela o trapo matéria invisível natureza morta" "Corpo arquivo" carrega também poemas que ilustram a capacidade sinestésica operada pelo eu-lírico, como "As diferenças do branco": "Castores sem vida esquilos sem dentes, a cal não deixa marcas ao corroer o tempo. Brancura afim, mas não tanto à brancura da neve que, ao fluir, dedilha silêncios. O branco da cal, em seta, disse ossos secos o da neve, mítico lavoura-alada de algodão." Note-se as aliterações bem construídas, o ritmo e a beleza do texto. Cada poema merece destaque, o que não cabe aqui, infelizmente. Mas, para encerrar, podemos evocar a modernidade de Lautréamont, no poema em que este se encontra com "Virgílio, no limbo" que "se recusa a acompanhá-lo" pelas veredas do sétimo círculo do Inferno dantesco. "Corpo arquivo" não é um livro de ocasião, feito às pressas. O autor, professor de literatura na Unesp de Araraquara, especialista em poesia contemporânea, tem admiração por vários autores, como Sebastião U. Leite, para quem dedica três poemas. Para Paulo Andrade, publicar um livro de poesia é, no mínimo, uma grande responsabilidade. Ele, para nossa felicidade, correu o risco - e fez uma obra invejável.
