O livro de contos "Dublinenses", o segundo publicado por Joyce, em 1914, soa como a mais acessível de suas obras (pois "Ulisses" e "Finnegans Wake" assustam milhares de leitores, ainda que inúmeros não reconheçam.)
Por sinal, essa parece ser a melhor opção para quem tem interesse ou curiosidade de conhecer um pouco da obra desse escritor que nasceu na periferia de Dublin e, hoje, é muito cultuado em todos os cantos da galáxia.
Os contos de "Dublinenses" são curtos, mas possuem uma qualidade evidente, que salta aos olhos. Todas as histórias são sobre pessoas comuns vivendo situações comuns em Dublin. Durante a leitura, pensava eu, ou melhor, aguardava uma guinada sensacional em alguns deles, mas a ausência desse traço ou drible é justamente o que há de mais interessante.
A beleza do cotidiano, de situações e personagens parecidos com muitos que conhecemos, por exemplo, numa capital brasileira do século XXI, é celebrada por Joyce num estilo seco, sem floreios, mais do que realista.
Contos como Uma pequena nuvem, Contrapartida, Um Caso doloroso ou Dia de hera na lapela são atemporais, de uma universalidade tão cristalina que é quase impossível não reconhecer vidas próximas às nossas em seus parágrafos.
Eu, por exemplo, me identifiquei a ponto de doer com Little Chandler, o sujeito que tenta ler um poema enquanto o filho chora em seus braços sem que ele saiba o que fazer para que o pequeno pare de berrar. Estou passando um pouco por isso e, admito, a semelhança à aflição do personagem me tocou especificamente.
Em Dia de hera na lapela, o pragmatismo dos cabos-eleitorais, militantes nacionalistas a serviço de um candidato ao parlamento por um movimento libertário, também poderia ter sido retratado em português.
Na minha leiga opinião, bastava esse conto para atestar o erro ou a má-fé de alguns estudiosos, que situam Joyce como um ferrenho alienado ou apolítico. Só alguém que entende e se interessa pelo assunto consegue descrever tão bem como políticos supostamente integrantes de projetos coletivos constroem suas carreiras e tocam candidaturas como assuntos pessoais ou projetos privados. Em 1914, Joyce já mandava o seu recado.
Além da prosa clara, seca, e de situar e centralizar toda a narrativa em Dublin, há outro elemento presente em praticamente todos os contos: hectolitros de uísque e cerveja.
Pelo que li, não existe sequer um personagem capaz de enxugar garrafas sem piscar. Até os amigos que conspiram para que o colega largue o vício, tocam a conspiração entre goles de um uisquinho especial.
Finalizando: o que seria a Literatura Universal dos séculos XX e XXI e dos vindouros sem Oscar Wilde, Yeats, Bernard Shaw, Joyce, Beckett e Sean O'Casey ?
Nada... Sem eles, apenas um Saara, com direito a paisagens datadas e aborrecidas.
Portanto, é justo que Deus salve a Rainha, mas opa, é justíssimo que Deus também salve a Irlanda, um país pobre, berço de gente teimosa, cabeçuda mesmo, mas a terra mãe de todos esses gênios literários.