Por que acreditamos em milagres? É por conforto, para explicar o inexplicável, ou simplesmente queremos uma conexão com algo mais profundo? E por que certas pessoas os desconsideram, como se não fosse possível que acontecessem? Milages podem mudar sua vida traz as provas incontestavelmente convincentes de que existe algo real a ser encarado, não importa quais suas opiniões prévias. Ele apresenta histórias reais do miraculoso que irão atrair leitores para a discussão séria que esse assunto tão rico e fascinante merece. A questão não é apenas se milagres acontecem ou não — esse livro já contém uma quantidade de provas surpreendente —, mas também o que exatamente eles são, por que acontecem e como podemos entender a presença deles em nossas vidas.
Milagres podem mudar a sua vida - 35 histórias provam que eles existem
Eric Metaxas
Minhas críticas a esse livro começam já com o subtítulo que foi acrescentado na edição brasileira: “35 histórias que PROVAM que milagres existem”. A ideia de que narrar histórias possa ser “prova” de algo tão controverso é ou muito ingênua ou muito descarada. É bom dar aqui um desconto ao autor, que ao menos foi muito mais modesto em seu título original: _Miracles: What They Are, Why They Happen, and How They Can Change Your Life_. A edição brasileira piorou ainda mais o livro ao inverter a ordem das suas duas partes: no original, primeiro Metaxas discute vários aspectos sobre o que seriam milagres para cristãos protestantes da sua vertente e depois conta algumas histórias de supostos milagres que teriam ocorrido com conhecidos seus. Assim a editora conferiu ainda mais peso a essa parte (que tem o dobro do tamanho da parte “teórica” e deixou essa outra parte quase como se fosse um mero apêndice. Gostei das epígrafes, mas a argumentação de Metaxas é muito fraca (inclusive, como já vi William Lane Craig opinar, abrindo demasiado espaço para o deus das lacunas, linha argumentativa há muito ultrapassada) e as narrativas de conversão de C.S.Lewis e do próprio autor na introdução não despertaram interesse, não foram apresentadas de modo empolgante. Muitas coisas me incomodaram na primeira parte do livro. O relato de conversão de Ed é cheio de clichês (tais como o marido tratando mal a esposa mesmo percebendo sua maldade e se culpando por ela. Depois, ao se converter, sendo invadido de amor pela esposa. Também cheio de críticas a outras vertentes cristãs imiscuídas. Na página 24, aparece algo como "as conversões genuínas são verdadeiras, portanto, milagrosas". Que, além de um tanto redundante, estabelece uma causalidade arbitrária ou dá uma definição muito genérica de milagre. Pouco abaixo, no penúltimo parágrafo da mesma página, aparece um parágrafo de autoexaltação mal disfarçada com uma falsa modéstia. Finalmente. Ao chegar ao relato de sua própria conversão, o relato torna-se mais autêntico. O relato que vem logo a seguir do seu próprio (o de uma mulher hippie cujo nome esqueci) mantém alguma autenticidade. O livro dá uma melhorada nesse trecho. Alguns relatos têm ao menos autenticidade emocional, o que me agrada. Por outro lado, muitas vezes, aplicar a adaga de Ockham teria sido salutar na seleção. Por exemplo, há um relato de um ministro de música de um culto aparecendo com uma tipóia no dia do culto e sendo curado por seu colega que ministrava o culto naquele dia. Hum... Isso não convence nem um pouco, pois a explicação muito mais óbvia é que teria havido um combinado entre os dois ministros. E aí está o problema: o autor, Eric Metaxas, para dar confiabilidade a sua seleção de relatos gasta só um parágrafo listando critérios bem vagos e subjetivos, dizendo que teria deixado de fora qualquer relato que pudesse ser explicado sem apelar para o milagroso. Bem, fica subentendido que Metaxas não põe em questão a honestidade de nenhuma das pessoas que contam suas histórias (e mesmo se o leitor também tivesse confiança na honestidade dessas pessoas, ainda, em alguns casos, é possível pensar em explicações alternativas mais simples). E, veja: o leitor tem que confiar nessas pessoas que para ele são apenas nomes, e tem que confiar no autor. Isto é, o problema do testemunho elevado a dois níveis: Metaxas diz que confia na honestidade daquelas pessoas, já o leitor tem que confiar na honestidade delas, na avaliação de Metaxas e na honestidade de Metaxas. O "nullius in verba" da Royal Society surge à minha mente a cada passo... O relato de como uma mulher chamada Lolita sobreviveu ao 11 de setembro tem um problema: por que Lolita teria sobrevivido por uma escolha especial de Deus enquanto tantas outras pessoas morreram esbagaçadas, queimadas, sufocadas etc.? Alguns dos relatos lembra relatos toscos de OVNIs. No capítulo sobre aparições de anjos, não pude deixar de lembrar a todo momento de _O mundo assombrado pelos demônios_, onde Carl Sagan tenta mostrar que as aparições seguem nossas fixações culturais, de modo que ao passo que na Idade Média se via muitos demônios, no século XX tecnológico as aparições mais relatadas são de OVNIs. No caso dos anjos com armadura, isso parece claramente dever-se ao período medieval, no qual colhemos a tradição de representação dos anjos. Muitas vezes o narrador usa um detalhismo exagerado (velho truque para dar verossimilhança à narrativa), que 90% dos leitores deve simplesmente saltar, como por exemplo: "A dona morava perto de Compo Beach. O caminho mais rápido era seguir pela Hillspoint Road e pegar a ponte que atravessa a 1-95, a rodovia interestadual muito movimentada que vai do Maine até a Flórida". A segunda parte é melhor que a primeira. A introdução a essa segunda parte (que, na verdade, é a introdução geral do livro original em inglês), é interessante, e o capítulo seguinte, baseado no livro de John Lennox cujo título foi traduzido como "Em defesa de Deus: por que os neoateístas estão errando o alvo" também é legal para quem não leu o livro de Lennox. Porém, o recurso a um resumo de um livro de outra pessoa como um capítulo de seu próprio livro é mais um sinal da falta de conteúdo de Metaxas.
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