"Todas las almas" cuenta la historia de los dos brumosos y singulares años que el narrador pasó en la Universidad de Oxford, una ciudad fuera del mundo y del tiempo. Y fuera de ambos viven los cautivadores personajes de esta novela: la amante casada del narrador, Clare Bayes, una mujer condicionada por algo a lo que asistió pero que no recuerda; el amigo Cromer-Blake, homosexual irónico que vive fabricando experiencias intensas para una vejez que prevé solitaria; el ya retirado y sagaz profesor Toby Rylands; el merodeador Alan Marriott, con su perro de tres patas y su conocimiento sobre la pareja espantosa que todos tenemos; y muchos otros, algunos extraordinariamente divertidos, hasta llegar al personaje que viene de otro tiempo, el enigmático escritor John Gawsworth.
Todas las almas -
Javier Marías
Todas as almas
Algo corrente nos romances do Javier Marías é a inscrição da morte na abertura do texto, o que também se pode verificar em “Todas las almas” (1989): “Dois dos três morreram desde que parti de Oxford, e isso me faz pensar, supersticiosamente, que talvez tenham esperado que eu chegasse e gastasse meu tempo ali para me dar a ocasião de conhecê-los e poder agora falar deles." Esse tema, por sua vez, costuma vir combinado com outro: o tempo, que é experimentado não como algo firme, com um antes, um agora e um depois bem definidos, mas como algo quebradiço -- presente, passado e futuro parecem se dissolver, se misturar, se confundir, dando a impressão de que "nada acontece de fato" (como dirá o narrador de outro romance). Já no primeiro capítulo entra em cena um personagem que a cada dia acorda num momento diferente de sua vida: ora acredita estar na década de 1910, ora na de 1960, ora na de 1930, e assim por diante; é essa crença que o leva a reconhecer, nos que se relacionam com ele na atualidade, pessoas que não vê há muito tempo. Em determinada passagem de "Todas las almas", encontrei algo que já tinha notado em "Corazón tan blanco" (1992) e "Mañana en la batalla piensa en mí" (1994): a tecnologia como um elemento desmaterializante, que contribui para a sensação de que nada acontece. Em "Todas las almas", um casal dono de um sebo se diverte em assistir, por meio de câmeras de segurança, aos clientes que circulam pela loja; em "Corazón tan blanco", uma amiga do narrador se inscreve num programa de encontros por meio da troca de vídeos (vídeos assistidos repetidamente); em "Mañana en la batalla piensa en mí", o protagonista assiste a filmes antigos na TV, com atores que já morreram, mas que o monitor apresenta vivos; há ainda uma fita de secretária eletrônica cujas mensagens gravadas (algumas inteiras, outras em fragmentos) dão ensejo a longas reflexões do narrador. Nesses três livros, porém, há um recurso que se opõe à sensação de que nada acontece: todos eles terminam com uma história que precisa ser contada, com um passado que precisa ser lembrado -- via de regra, um passado trágico. Uma vez que o passado adquire corpo, que a dor do que aconteceu mancha enfim o coração tão branco dos personagens, parece abrir-se uma porta para o presente e para o futuro, cabendo aos personagens (e aos leitores?) atravessá-la ou não.
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