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    Jaime Bunda e a morte do americano

    Pepetela

    Dom Quixote
    2003
    277 páginas
    9h 14m
    ISBN-10: 9722025279
    Português
    3.9
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    Manuel Gimo José03/02/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Jaime Bunda... O Agente Secreto Angolano.

    AUTOR: Pepetela TÍTULO: Jaime Bunda e a morte do americano LOCAL DA PUBLICAÇÃO: Alfragide EDITORA: Publicações Dom Quixote ANO DA PUBLICAÇÃO: 2003 PÁGINAS: 256 FORMATO DO LIVRO: eBook (ePub) SINOPSE: Então não havia o Afeganistão, a Somália, o Irão ou a Colômbia, países ideais para um americano morrer de morte matada, sem levantar muitas comoções nem pasmos, pois eram territórios já habituados a serem tratados de promotores e antros de horripilantes anti americanismos ? Aí tanto fazia, mais um menos um, não provocava qualquer crise mundial. Porque iria logo escolher a pacífica Benguela, onde, de memória de gente, nunca nenhum americano tinha morrido, nem mesmo quando os ianques andaram a apoiar, abertamente ou de caxexe, os famigerados terroristas, linguagem oficial de um dos lados, lídimos e heróicos defensores da democracia no dizer do outro lado? Mas foi isso que aconteceu, o engenheiro gringo bateu subitamente a caçoleta na pachorrenta cidade das acácias rubras, para grande tristeza e preocupação dos governantes, locais e nacionais, e perante a indiferença da maioria da população, ocupada na legítima e cada vez mais problemática azáfama de sobreviver. _______________________ «– Veio de Luanda um craque dos SIG, sabem o que é?� – Eu, não – disse Júlio, finalmente interessado.� – Serviços de Informações Gerais. Claro que o nome não diz nada, como sempre nestes casos. Mas é a polícia mais secreta de todas, a polícia das polícias, a que controla todas as outras, directamente ligada ao Bunker.� Deusdado falou pela primeira vez desde que chegou o jornalista. Sempre na sua voz calma, bebericando no copo de uísque.� – Então é para valer. Os SIG são a sério, não brincam no serviço. O Governo deve ter sido apertado pelos americanos.� – Claro – disse Gouveia. – O dito agente tem uma característica particular, manda uma bunda daquelas... Aliás, o nome dele é Bunda, Jaime Bunda. A minha fonte diz que é das mentes mais finas da bófia, um espanto. E como quem o vê não dá nada por ele, acaba por enganar todos.» (p. 96) Depois de conhecer as peripécias do Jaime Bunda em "Jaime Bunda, Agente Secreto" (2001)¹, seu livro de estreia, resolvi o conhecer ainda mais lendo o segundo livro protagonizado por si. E claro, conhecer mais a escrita de Pepetela, um dos maiores escritores angolanos da actualidade. « Talvez por reparar na admiração e entusiasmo dos outros em relação ao rapaz do grande mataco, Shirley se virou para ele e com a voz mais melosa, que criou espessos ciúmes no comandante da polícia, perguntou:� – Mas afinal como é mesmo o seu nome? Só o conheço por Jaime…� – Bunda, Jaime Bunda.» (p. 156) Em "Jaime Bunda e a morte do americano", Pepetela leva Jaime Bunda à Benguela, sua cidade natal, para desvendar a morte dum engenheiro americano. Designado pelo seu primo D. O. (Director de Operações), o agente de largo mataco (bunda) parte imediatamente para a dita cidade. Pela primeira vez fora da sua amada Luanda, o kaluanda (luandense) Bunda vai dirigir, mais uma vez, uma investigação de alta importância, com repercussões internacionais. Vai provar que seu primo D.O. não estava errado a seu respeito e que ele é um verdadeiro bófia digno de estar no Bunker. Um exímio detective! Que de um caso vai se colidir com outros casos, como roubos nos comboios e tráfico infantil. E quanto as investidas de Bunda para impressionar a efebêista (agente do FBI) Shirley, apesar de muito engraçadas, mostram que o nosso herói também é humano. Não que isso não fosse mostrado no livro anterior (lembremos-nos do que Bunda foi capaz de fazer pela Florinda) mas esse tipo de desenvolvimento é muito bem vindo além de ser enriquecedor. «É [...] o pacto dos poetas com a sociedade. Dizer coisas que não são ouvidas.» (p. 230) Pepetela mostra-se um escritor engenhoso, misturando a sua ficção com factos históricos e tecendo, como esperado, críticas político-sociais que também não fogem muito da nossa realidade moçambicana. Pepetela coloca em cerne a constante presença dos EUA em Angola, em África em geral e no mundo dito de grosso modo, através de suas muitas organizações governamentais e de boa vontade. A crítica está em cada parágrafo minuciosamente explícita. É de agradar os olhos. E a questão dos novos-ricos é mais bem explorada aqui, o que me agradou muito. Quanto a estrutura da obra, o narrador principal do primeiro livro (o que fora demitido e perdoado posteriormente) toma as rédeas, mas sob constante observação do autor, como evidenciado ao longo da narrativa. Os Epílogos (são três) ficam a cargo do autor (bom, na verdade verdade, o autor fica com os últimos dois epílogos). No entanto, este "Jaime Bunda e a morte do americano" não chega aos pés do seu antecessor que é muito superior em muitos aspectos (que alguns são até repetidos), a começar pela trama principal que começa meio que num ritmo lento. O bundão só salva a história lá já no meio da trama depois de muitos rodeios, que na essência não é nada mal pois é aí onde entram o Júlio Fininho, "o Robin dos Comboios" e a mulata Maria Antónia. A história dos dois é muito bem contada e a coincidência com a história de 50 anos atrás torna-a mais alegórica. E falando em personagens, o livro só tem os interessantes, de Nicolau passando pelo Aguinaldo Trindade até ao grupo "Língua de Fogo". E como esquecer o infame Charlô Qualquer Coisa? Personagens cativantes que fazem parte duma boa história de um óptimo escritor. Africanos podem, sim, escrever romances policiais. «A sorte encontra quem a procura.» (p. 110) Enfim, esta é uma dolorosa despedida ao Agente Secreto uma vez que este é o último livro protagonizado por si até o momento. Uma pena pois "Jaime Bunda" dá um bom título à uma saga. Espero que Pepetela tenha, um dia, a bondade de abrilhantar-nos com um terceiro volume (e um quinto, um sexto e até porquê não um sétimo?). Mas enquanto isso não acontece, espero, em breve, ler outras obras deste autor. «Toda a gente merece alguma esperança.» (p. 191) OUTRAS CITAÇÕES: «Mas haverá portas que dólares não abram?» (p. 8) «Cada um tem a vida que quer, ou melhor, que pode.» (p. 39) «Paixão é assim, transforma o covarde em corajoso, o gombelador em virgem noviça.» (p. 39) «Quando é para salvar a vida, todos os preconceitos são esquecidos.» (p. 71) «[...] nunca matamos definitivamente o marginal que temos dentro de nós, mesmo se só por medo de o revelar [...].» (p. 162) «Os ladrões tornam-se moralistas para defender o que sacaram.» (p. 226) AVALIAÇÃO: 9.8/10 _____________________ Review by: Manuel Gimo

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    Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos

    Escritor e docente angolano que usa sua obra como reflexão da história contemporânea e dos problemas que a sociedade angolana enfrenta. Lutou juntamente com Movimento Popular de Libertação de Angola, período que retratou em seu romance "Mayombe".

    42 Livros
    91 Seguidores
    Benguela, Angola

    Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos