“A memória encontra aquilo que busca.” Ditadura, tortura e desaparecidos políticos são temas difíceis ao país e a milhares de famílias brasileiras. Trabalhos científicos e jornalísticos não dão conta do quanto a memória precisa trabalhar para enfatizar, expurgar, desabafar. Em seu novo romance, Guiomar de Grammont dá vida a Sofia, jornalista que tenta reconstruir a vida buscando notícias do irmão que se envolveu na Guerrilha do Araguaia. A narrativa é tecida através dos relatos históricos de desaparecidos políticos, mas também sensível, literária, ao acompanhar as divagações da protagonista em sua busca pela história do irmão. Com Palavras cruzadas, Sofia e Guiomar alcançam o que suas memórias buscam. E o leitor tem mais um Brasil para desbravar.
Palavras Cruzadas
Guiomar de Grammont
O romance trata da Guerrilha do Araguaia, episódio de um massacre — terminantemente negado pelos militares até meados da década de 1990 — empreendido pelas forças armadas contra mais de 60 guerrilheiros durante a ditadura brasileira (ainda não há consenso sobre o total de mortos). A história dessas vítimas da repressão é a história de corpos sem sepulturas, filhos e irmãs que nunca retornaram, familiares eternamente aguardando um luto impossível de ser elaborado. Situado em nossa desmemoriada democracia, o romance de Grammont apresenta uma jovem jornalista, Sofia, em busca de notícias de seu irmão desaparecido político na Guerrilha. O desenvolvimento do enredo é bem novelesco, mas isso não deve ser compreendido como algo negativo. Sem ceder a dicotomias fáceis (guerrilheiro-bom, militar-mau), Grammont entrega uma narrativa bem articulada, repleta de arestas intencionalmente afiadas para incomodar a gregos e troianos, revelando aos poucos os mistérios da trama (alguns bastante óbvios) sem cansar ou menosprezar a inteligência do leitor. O mais importante, no entanto, é a maneira como o livro consegue tratar diferentes esferas do trauma da ditadura com igual competência através de pontos de vista diversos: a vida na guerrilha, a busca por um desaparecido, os efeitos devastadores nos familiares, o sequestro de bebês por militares, a podridão insepulta da violência de estado. Se tomado alegoricamente, podemos até sugerir que a personagem da mãe, Luísa, representa a Memória Brasileira constantemente ignorada, quando não silenciada, que para ser ouvida precisa se valer de artifícios labirínticos que estimulem seus filhos a buscar uma verdade bastante esquiva. Contra o esquecimento imposto pela Anistia—alô, Damares!—, contra a amnésia coletiva que impede a revisão do passado e o exorcismo da dor, somente a memória, a narrativa, o entendimento são capazes de tornar possível “uma reconciliação com o mundo, para poder continuar vivendo, depois do horror”. Ou seja, é preciso lembrar para “esquecer”. #palavrascruzadas #guiomardegrammont #editorarocco #duramemória
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