o patrimônio é o que a gente tem
"Agora, só aparece a arquitetura dos ricos, das grandes companhias. Só emerge à superfície a obra faustosa dos poucos manipuladores do dinheiro" Carlos Alberto Cerqueira Lemos foi defensor ferrenho do patrimônio urbano, além de membro de órgãos de patrimônio, arquiteto da equipe de Niemeyer e professor titular na FAU-USP. Nesse livro, que reúne seus textos para jornais (dos mais aos menos polêmicos), Lemos transpira conhecimento sobre história do patrimônio histórico brasileiro e arquitetura. O arsenal de história da arquitetura dele é bizarro de grande, fiquei chocada. Bom, o foco principal do livro é a cidade de São Paulo, onde Lemos atuou durante toda a vida. Então se você não for de São Paulo (meu caso), vai ter que pesquisar algumas referências na internet pra não ficar perdido em alguns capítulos. "a nossa cidade (...) já se renovou sobre si mesma três vezes numa autofagia incontrolável: já foi de taipa, de tijolos e a atual cidade de concreto continua se renovando à espera de uma nova tecnologia que por certo virá." Ele conta MUITAS experiências como membro de um conselho paulista de proteção ao patrimônio E o bacana disso é ler alguns de seus textos que de fato ajudaram a proteger edifícios de serem demolidos. Textos que conseguiram movimentar reações populares que evitaram a demolição. Lemos é polêmico, firme, quase brigão. Suas principais críticas são à especulação imobiliária (que sempre desrespeita o patrimônio), às soluções transportadas que não estudam o contexto do local, à falta de planejamento, à falta de uniformidade do espaço urbano, ao zoneamento a posteriori, entre tantas outras. "Poucos ganharão muito com aquela horrenda cidade vertical. A beleza nem foi levada em conta: basta a altura desmesurada para encantar os basbaques. Lá de cima, todos poderão cuspir na cidade informe, nos bairros em degradação e em favelas a perder de vista." É bastante interessante seu texto sobre a preservação arquitetônica em Cuba (que por ser socialista não tem especulação imobiliária) e também muito pertinentes todos seus comentários que alfinetam os especuladores: "Um empresário da construção pode ter muitos méritos e qualidades, quase sempre é um engenheiro ou arquiteto bem-sucedido na especulação imobiliária" A única coisa que me incomodou profundamente foram alguns comentários classistas e preconceituosos. Eu tento não cometer anacronismo e julgar o autor, dada a época em que nasceu (1925), mas o incômodo foi real em vários textos. Especialmente quanto o autor faz afirmações elitistas sobre reurbanização de favelas e contra o grafite urbano. Opiniões e comentários arcaicos. Em termos de conhecimento técnico sobre arquitetura e urbanismo, a leitura deste livro pra mim foi um 10/10. No entanto, há de se atentar para buscar outras referências de autoras e autores atuais que possuam um olhar menos obsoleto sobre temas tão importantes das nossas cidades como periferia e arte urbana.
