Esta obra publicada em 1755, há mais de dois séculos, instiga e provoca uma reflexão sobre o tema, ainda atual, da desigualdade entre os homens. Rousseau, filósofo genebrino, mostra como aconteceu o desenvolvimento do homem desde seu estado de natureza até a vida em sociedade. Dividida em duas partes, na primeira o autor descreve o homem e o ambiente em que vive no estado natural. Na segunda, mostra que a sociedade civil teve início com o homem que afirmou: Isto é meu. Para ele, o homem selvagem anseia apenas o repouso e a liberdade, já o outro, sempre ativo, agita-se, trabalha até a morte, faz a corte aos ricos e se envaidece de sua escravidão pela vida. Nesta obra, o autor traz à tona esse duplo problema arraigado na sociedade desde os tempos antigos. Assim, remonta aos primórdios do gênero humano e reconstrói a história do homem e de sua corrupção, partindo do desvendamento de sua condição primitiva para chegar à constituição das sociedades civis. Leitura fundamental e releitura sempre reveladora.
Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens -
Jean-Jacques Rousseau
Lista de livros: Discurso Sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens Jean Jacques Rousseau
Parte I: Só a inscrição do templo de Delfos continha um preceito mais importante e mais difícil do que todos os grossos livros dos moralistas. * O luxo, impossível de prevenir entre os homens ávidos de suas próprias comodidades e da consideração dos outros, não tarda a completar o mal que as sociedades começaram; e, sob o pretexto desnecessário de fazer viver os pobres, empobrece todo o resto e despovoa o Estado, cedo ou tarde. O luxo é um remédio muito pior do que o mal que pretende curar; ou antes, é ele mesmo o pior dos males, em qualquer Estado, grande ou pequeno, e que, para nutrir as multidões de criados e de miseráveis que fez, acabrunha e arruína o trabalhador e o cidadão. * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2017/05/discurso-sobre-origem-da-desigualdade.html XXXXXXXXXXXXXXXX Parte II: O que a reflexão nos ensina sobre isso, a observação o confirma perfeitamente: o homem selvagem e o homem policiado diferem de tal modo no fundo do coração e nas inclinações, que o que faz a felicidade suprema de um reduziria o outro ao desespero. O primeiro só respira o repouso e a liberdade; só quer viver e ficar ocioso, e a própria ataraxia do estoico não se aproxima da sua indiferença profunda por qualquer outro objeto. Ao contrário, o cidadão, sempre ativo, sua, agita-se, atormenta-se sem cessar para buscar ocupações ainda mais laboriosas; trabalha até à morte, corre mesmo em sua direção para se pôr em estado de viver, ou renuncia à vida para adquirir a imortalidade; faz a corte aos grandes que odeia e aos ricos que despreza; nada poupa para obter a honra de o servir; gaba-se orgulhosamente de sua baixeza e de sua proteção; e, vaidoso de sua escravidão, fala com desdém daqueles que não têm a honra de a partilhar. Que espetáculo para um caraíba os trabalhos penosos e invejados de um ministro europeu! Quantas mortes cruéis não preferiria esse selvagem indolente ao horror de vida semelhante, que muitas vezes nem mesmo é compensada pelo prazer de fazer o bem! (...) Tal é, com efeito, a verdadeira causa de todas essas diferenças: o selvagem vive em si mesmo; o homem sociável, sempre fora de si, não sabe viver senão na opinião dos outros, e é, por assim dizer, exclusivamente do seu julgamento que tira o sentimento de sua própria existência. Escapa ao meu tema mostrar como de tal disposição nasce tanta indiferença pelo bem e o mal, com tão belos discursos de moral; como, reduzindo-se tudo às aparências, tudo se torna factício e representado, honra, amizade, virtude, e muitas vezes até os próprios vícios, cujo segredo de se glorificar finalmente se encontra; como, em uma palavra, perguntando sempre aos outros o que somos, e não ousando jamais interrogar-nos sobre isso nós mesmos, no meio de tanta filosofia, humanidade, polidez, máximas sublimes, não temos senão um exterior enganador e frívolo, honra, sem virtude, razão sem sabedoria, e prazer sem felicidade. Basta-me ter provado que esse não é o estado original do homem, e que só o espírito da sociedade e a desigualdade que ela engendra modificam e alteram, assim, todas as nossas inclinações naturais. * Mais do blog Lista de Livros em:
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