Obra imprescindível!
Georges Gusdorf evidencia a crise da docência a partir de sua dimensão existencial. A crise da educação é a crise da própria cultura, pois as pessoas encontram-se sem condições de se colocarem no mundo e os sistemas de ensino reduziram o ato pedagógico a uma vivência meramente técnica, suprimindo seu aspecto humanista e cultural. O autor critica a especialização fragmentária do conhecimento e a perda de um horizonte de formação humana, algo que deveria unificar a reflexão sobre educação. O livro supõe que é a figura do mestre, o uso que este faz da comunicação enquanto diálogo e sua presença enquanto outro sujeito que promove a continuidade da cultura humana e, por extensão, da educação. A palavra do mestre na relação com o aluno não é apenas veículo de comunicação, mas serve como auxílio para a constituição da consciência no mundo, neste sentido, educar é instaurar um mundo simbólico compartilhado. Gusdorf em vários pontos questiona a racionalidade instrumental, de maneira bem socrática propõe a educação como uma jornada de autodescoberta/autoconstrução do ser humano na cultura. As áreas do conhecimento são apenas um meio para a finalidade educativa, que visa a compreensão da condição humana e o estabelecimento de propósito e direção para as pessoas. A relação que o livro sugere entre mestre e discípulo na educação pode ser resumida da seguinte forma: o mestre é aquele que busca a verdade no diálogo, mas que sabe que não sabe; o discípulo é aquele que sabe que não sabe, mas que supõe que o mestre saiba. O papel transitório do mestre nesse contexto é fazer do discípulo alguém autônomo o suficiente para reconhecer-se enquanto pessoa que sabe que ninguém sabe, mas que, mesmo assim, permanece em busca do saber no encontro dialogal com os outros e com o mundo. O docente é quem inquieta e provoca os alunos para essa nova realidade de existência, é quem promove a relação de amizade que torna possível o enriquecimento mútuo entre os seres em determinado cenário cultural, pois a cultura é a moldura na qual se realiza a humanidade do homem. O professor, na medida em que media a cultura e interliga passado, presente e futuro, deve ser resgatado como figura civilizacional e responsável pela continuidade simbólica da experiência humana. Portanto, a verdadeira pedagogia é aquela que questiona a si mesma, que se reconhece como arte e ética numa dinâmica sempre relacional, que aponta para uma formação humana enraizada numa visão compartilhada de ser humano, mundo e cultura.


