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    Relatório ao Greco -

    Nikos Kazantzakis

    Cassará
    2014
    488 páginas
    16h 16m
    ISBN-13: 9788564892217
    Português Brasileiro
    4.8
    7 avaliações
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    Favoritos2Desejados59Avaliaram7

    Em 1957, já mundialmente conhecido e então endeusado com a exibição de um filme baseado em sua obra (“Aquele que deve morrer" ou “O Cristo recrucificado”, de Jules Dassin), Nikos Kazantzákis (1883-1957) resolve empreender, com sua mulher Élena, mais uma de suas viagens ao Oriente, desta vez com ênfase na China e no Japão. Após visitar a China, cujos resultados da revolução, ocorrida oito anos antes, o sempre curioso cretense queria conhecer, o casal se detém em Hong Kong, onde seria necessário vacinar-se contra a cólera e a varíola, requisitos oficiais para se entrar no Japão. Kazantzákis lutava contra uma incipiente leucemia e a vacina, neste caso, provocou uma reação nefasta: paralisou-lhe o braço direito, que precisaria ser amputado. Élena salva o marido da mutilação, levando-o de volta para Frieburg, na Alemanha, onde um tratamento de choque consegue aproximá-lo da sonhada recuperação. Mas Kazantzákis, “um dos maiores espíritos do século XX” (no dizer de Otto Maria Carpeaux), sente que seu fim está próximo e precisa concluir a sua obra. Nestas circunstâncias é que se lança, com todo empenho, na revisão e conclusão daquele que seria seu testamento espiritual, o “Relatório ao Greco”. “Guardo minhas ferramentas... a tarefa terminou... como uma toupeira, volto para a casa, para a terra. Não por ter me cansado de trabalhar, não me cansei, mas o sol se pôs.” Doménikos Theotokópoulos (1541-1614), nascido na mesma Heráclion cretense de Kazantzákis, depois de uma longa peregrinação artística pela Itália, fixou-se em Toledo, na Espanha, onde se tornou o grande pintor hoje conhecido por El Greco. A esse ancestral, que como ele carregava nas mãos um torrão do solo natal, Kazantzákis dedica seu livro-testamento, simbolizando nessa figura todo um passado glorioso de sua estirpe. No texto, muitas vezes o pintor é assimilado ou confundido com o próprio pai e com o avô do poeta. E a narração de seus feitos, reais ou idealizados, se confunde com a própria saga de uma Hélade dominada e ressurrecta, que consegue superar-se com base em seus valores históricos, na epopeia de seus heróis. Para completar o livro, a história de sua permanente procura de Deus e da sabedoria, Kazantzákis deixa de lado outros grandes projetos em se envolvera: a tradução para o inglês de sua recriação da “Odisseia”, de Homero, com 33.333 versos e o “Terceiro Fausto”, que sempre sonhara escrever. A vida e a obra de Kazantzákis encerram uma permanente busca da superação. Já em seu livro “Ascese, salvatores dei”, o autor procurava desesperadamente conciliar as antinomias que lhe atormentavam a consciência: a ação e a contemplação, buscando uma síntese entre o comunismo e o cristianismo. Passara por fases espirituais transcendentes: Buda, Lênin, Cristo, Bergson, Nietzsche, superando cada uma delas com a ideia de que a verdade total não lhe havia sido ainda de todo revelada, que era preciso ir mais longe, mais fundo, mais alto, um passo além do que julgara ser o último possível. Já na maturidade de seu pensamento, tentando a superação do destino e dos valores arraigados, Kazantzákis sente a necessidade de relatar sua experiência de vida, sua luta obstinada de encontrar a verdade e Deus, não para amá-los, mas para contestá-los e destruí-los. Num de seus diálogos com Deus, o autor conclama: “Sou um arco em suas mãos, Senhor, tensione-me senão apodreço. Não me tensione demais, Senhor, posso quebrar-me. Tensione-me, Senhor, mesmo que eu quebre.” Essa luta e essa esperança é que são as entranhas da confissão-despedida-testamento, o “Relatório ao Greco”, na qual se ouvem ecos de Zaratustra e conselhos de Demian... Destaque para a tradução brilhante de Lucilia Soares Brandão.

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    Glauber Costa Fernandes19/10/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Uma joia

    Esse foi meu livro de cabeceira por 2 anos. Conclui ontem. Trata-se de uma espécie de autobiografia do autor. E esse cara é o meu autor favorito de sempre. Sua linguagem e as imagens que evoca me atingem a cada frase. Por isso, leio devagar. No livro, o autor se torna um personagem típico de suas narrativas, ousado diante do abismo. Acompanhamos sua vida desde a juventude, com todas as descobertas, angústias e transições. Nessa reelaboração de sua vida, o autor coloca como meta uma "subida" ao limite do homem, e, nesse percurso, segue na companhia de grandes personalidades da história da humanidade: Jesus Cristo, Buda, Francisco de Assis, Lenin, Bergson, além dos ficcionais Zorba e Odisseu. Assim como todos essas figuras representaram uma transcendência do homem para com seu próprio contexto, o autor traça sua jornada carnal e espiritual pelo mundo, passando por vários países, até se reencontrar em sua própria terra, Creta, na Grécia. O título do livro se explica pelo fato da autobiografia assumir a forma de um relatório, uma prestação de contas da sua vida, e tal testemunho é endereçado ao pintor El Greco, muito admirado pelo autor, por sua originalidade e ousadia artística, que o leva a uma liberdade tão almejada pelo autor. A escolha do pintor se dá também por ele encorporar para Nikos um representante de sua terra natal que melhor entenderia sua trajetória em busca do entendimento de si mesmo. Por ter vivido em sua terra natal sitiada pelos turcos, a "liberdade" se torna um tema recorrente em seus livros, mas, como todos os temas tratados por ele, recebe um sentido ao mesmo tempo material e imaterial. A escrita do autor é de coração aberto, com todos os sentimentos e ideias à mostra, por meio de uma sinceridade de quem escreve perto da despedida da vida. E aqui tudo ganha ainda mais profundidade, pois todas as dicotomias, vida e morte, alegria e tristeza, chegada e adeus, tentam se conciliar, em um constante conflito, que dá forma ao "destino", ao estilo grego, na sua grande jornada, que se confunde com sua primorosa, e tão humana, obra literária.

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    Nikos Kazantzakis

    Foi um poeta, novelista, dramaturgo e filósofo grego. Mestre da literatura grega do século XX, ficou conhecido como um brilhante revitalizador dos mais diversos gêneros literários. Para fugir da instabilidade política na ilha de Creta, seus pais inscreveram-no em uma escola de padres franceses na ilha de Naxos. Depois estudou direito em Atenas (1902-1906) e filosofia em Paris, onde durante dois anos (1907-1908) foi aluno de seu tutor, o filósofo Henri Bergson. Depois, como correspondente estrangeiro de imprensa, viajou por Espanha, cobrindo a Guerra Civil Espanhola para um jornal grego, Reino Unido, União Soviética, Egito, Palestina e Japão, enquanto escrevia, incluindo poemas, reflexões filosóficas e comentários de viagens. Lançou Odíssa (1938), poema de 33.333 versos que pretendia ser um prolongamento da célebre obra de Homero. Durante os primeiros meses da Segunda Guerra Mundial, trabalhou para Conselho Britânico, em Londres (1939-1940), deixando o posto para retornar à Grécia, onde viveu sob a ocupação alemã. Envolvido na política nacional, foi nomeado Ministro da Educação (1945) e tornou-se dirigente do partido socialista grego (1946). O prestígio internacional do autor veio com romance Víos kai politía tou Aléxi Zormpá (1946), o famoso Zorba, o grego que também fez grande sucesso quando adaptado para o cinema (1964). Por um curto período morou na Inglaterra (1946) e depois radicou-se na praia francesa de Antibes, onde escreveu O kapetfán Mikhális (1950), os romances filosóficos O khristós xanastavrónetai (1954) e O televtaíos pirasmós (1955), levado ao cinema como A última tentação de Cristo (1988). Suas obra literária abrangeu de ensaios filosóficos como Asketiké (1927), poesias e tragédias e traduções de obras clássicas da literatura, como a Divina comédia de Dante e o Fausto de Goethe. Durante uma viagem à China, adoeceu, foi transferido para Copenhague e depois para um hospital em Freiburg im Breisgau, Alemanha, onde infelizmente morreu aos 71 anos e foi enterrado em Heráclion, sua cidade natal, na Ilha de Creta.

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