Finalizei "An Unquiet Mind" já alguns dias, mas ainda penso nele. Quando acabei, decidi que escreveria aqui a respeito, como uma forma de registrar o quanto a leitura foi impactante pra mim. Não o fiz então, mas o faço agora.
Trata-se de um livro de memórias escrito por uma psicóloga clínica diagnosticada com transtorno maníaco-depressivo; ou transtorno bipolar, como chamam alguns. Kay escreve de maneira crua e direta, na medida em que pode e a memória permite, sobre suas experiências com o transtorno, desde que não fazia ideia que o teria, passando pelo período em que evitou a todo custo reconhecê-lo até o ponto em que não só admitiu o diagnóstico, como estudou e escreveu sobre ele.
Talvez um dos aspectos mais tocantes desse livro para mim seja o fato de que a narradora consegue fazer um relato imensamente informativo sobre os sintomas, efeitos e consequências da mania e da depressão, ao mesmo tempo em que oferece ao leitor uma generosa visão da sua vida interior, sua família, seus amigos, seus relacionamentos amorosos, seu trabalho... com (aparente) igual honestidade, seus momentos de maior êxtase e mais severa agrura.
"For each awfulness in life, however, I seemed to have been given an offsetting strock of luck" (p.45).
O que fazer quando algo irreversível como um transtorno te desconecta de si mesmo? Retira do horizonte tudo o que você conhece como "eu"? Nada mais é confiável, além de qualquer descrição possível. Ainda assim, Kay tenta. E que bom, apesar de tudo, que o faz.
"Not only had my thoughts spun wild, they had turned into an awful phantasmagoria, an apt but terrifying vision of an entire life and mind out of control" (p. 80).
É importante destacar o quão responsável (ela é, afinal, uma profissional nesse campo) Kay é em seu relato. Inúmeras são as vezes em que destaca a indissociabilidade entre medicação e psicoterapia para enfrentar a mania-depressão. Não como uma forma de mascarar a verdade do transtorno, de "conter", por assim dizer, as pessoas que sofrem dele, a fim de adequá-las à sociedade. Com isso ela pretende, penso, apontar para a única forma possível de existir dignamente com os altíssimos e baixíssimos do transtorno, com foco no bem-estar da pessoa, não no meio em que ela está inserida ou nos que a cercam, embora isso também seja importante.
Acima de tudo, acho que Kay escreve espetacularmente bem. Quando diz que não poderia não escrever esse livro, penso que imagina, em grande parte, nas pessoas com transtornos, a mania-depressão ou outros, que lerão o livro. De qualquer forma, tal relato também é de indescritível importância para pessoas que não sofrem deles, mas que certamente encontrarão, ao longo da vida, indivíduos que sofrem.
Por fim, deixo um dos muitos ensinamentos da autora: as barreiras que construímos para lidar com nossos problemas, internos e externos, ou ambos juntos, indissociáveis, têm de ser fortes, sólidas o bastante para nos manter vivendo, lutando. É preciso atenção, no entanto, para também fazer delas permeáveis. Fortalezas, sim, mas comunicáveis com a vida ao redor. Lembrar de abrir as janelas de vez em quando.
Deixar o ar entrar.