RESUMO
O ato de trabalhar envolve emoção e cognição, a subjetividade de quem trabalha. O trabalhador não é mera máquina de reproduzir movimentos. Estes dois elementos agem juntos na psiquê, não há por quê separá-los. Essa subjetividade é o que impulsiona a atividade. Dependendo da mudança do sentido da atividade, sentido do trabalho, a subjetividade muda de sentido também, por exemplo se a emoção diminui também é diminuido o desempenho intelectual, se há opressão a atividade intelectual é envenenada por essa intensificação de controle e a emoção também. Quando há diálogo entre afeto e intelecto, se forma um ciclo virtuoso. A emoção no trabalho é ao mesmo tempo OBJETO, FERRAMENTA E EFEITO (flutua entre estes 3). A ergonomia trata a emoção no trabalho como objeto de modo que a torna algo mais racional. A emoção é produto da cognição mas ao mesmo tempo ela é um meio de se apropriar dos objetos externos. A atividade é diferente da tarefa. Tarefa é o que deve ser feito e atividade é aquilo que se faz. Atividade é formadora de função psicológica (mediadora do sujeito e o mundo externo), "lugar" onde se pode ser afetado pelo mundo externo, se dialoga com o mundo, um instrumento clinico. A atividade é a realização do prescrito (demandado pela realidade) e dos objetivos pessoais também, realizar-se. Criar, trazer à existência. Clot faz referência ao materialismo histórico dialético quando fala que a atividade é o "lugar" de investimentos vitais que transforma objetos do mundo em meio de viver, controla o meio, o domestica. è uma ferramenta para afetar o mundo, agir sobre ele. É fonte de desenvolvimento do sujeito, ferramenta para apropriação de objetos externos por meio do afeto atribuído a eles. Ao mesmo tempo o trabalho é um obstáculo por si mesmo, ele tem um duplo caráter. Quando o trabalho não tem sentido (desvinculado do que realmente é importante para o trabalhador), é alienado, deixa de ser ferramenta para afetar o mundo, vira algo mecânico que impede o poder de agir do trabalhador, assim também se produz defesas psíquicas contra a subjetividade que foi atacada por esse impedimento. A manutenção dessas defesas psíquicas é simultânea a manutenção dessa tarefa que se tornou falsa e fictícia. Cada atividade tem história própria, resíduos de fases antigas. A ATIVIDADE REAL é um conjunto de elementos: a atividade impedida, atividade sonhada, o que não se faz, o que se tenta fazer sem ser bem sucedido, o que poderia ter feito, o que se pensa ser capaz de fazer. A TAREFA PRESCRITA é o estabelecido, serve para economia de energia (criar a cada ação seria impossível). Pré-organiza as operações e condutas. O impedimento do poder de agir pode ocorrer de várias formas (modalidades de atrofia). - Perda do sentido da atividade, trabalho: causa impotência, o trabalho se torna psicologicamente artificial. - Ressentimento: a injustiça causa sentimentos de humilhação, dissociação. A atrofia decorre da sua própria história. Ocorre uma desrealização, se vê como prisioneiro de uma existência supérflua. A impossibilidade de identificação fabrica um ódio. Acontece um impedimento para que se viva outras experiências, começa a se acreditar nos "delírios" que se submete no trabalho, se aliena. É impedida a iniciativa e criatividade. Além disso a comunicação com a sua subjetividade também é "bloqueada", sendo assim é estagnada a construção dela. Com isso surgem defesas como maneira de dominar o conflito, ocorre a "doença", considerada como um "pedido de ajuda" para esta situação que se deu, uma contrariação de um sentimento de vida. Mas o excesso de defesas faz o organismo se comportar como o agressor. Já a saúde é o poder de ação sobre si e o mundo, ela não é contrária a doença, só é um outro estado psicofisiológico que visa um equilíbrio, modificação do estado anterior patológico. Em um cenário de uma atividade sem sentido, atividade impedida, pode haver duas saídas para o trabalhador: a defesa e a supercompensação, ou rejeita ou vive o cenário fictício, o que leva à alienação. A clinica da atividade é outra maneira de fazer psicologia do trabalho, tem por objetivo fazer com que haja diálogo e movimento novamente, tanto do sujeito consigo mesmo quanto dele com o meio externo. Entrar em contato novamente com a subjetividade e recuperar o poder de agir, escapar do confinamento que foi estabelecido. Visa a promoção de saúde e não só a preservação da normalidade (já que age na ampliação de consciência). Os métodos utilizados (de pesquisa e intervenção ao mesmo tempo) são a autoconfrontação simples e cruzada e a técnica de instrução ao sósia. O objetivo é a ampliação de consciência e reflexão para que possa haver uma posterior transformação. A clinica se trata de intervenção, não só descrição dos fenômenos. Se valida os protestos dos trabalhadores, os considera, se define índices de nocividade. Clot utiliza vários auxílios teóricos para a construção dessa clínica da atividade: ergonomia, teoria do desenvolvimento proximal de Vygotsky, conceito de ampliação de consciência e psicopatologia do trabalho de Dejours (mesmo usando, critica algumas coisas). O poder de agir é impulsionado novamente, redescoberto, com a renovação do sentido da atividade e com o "desbloqueio" da emoção (voltar a imaginar). O poder de agir não aumenta em linha reta, tudo depende do sentido da atividade e de sua eficiência. A renovação do sentido da atividade pode ser promovida por quem trabalha (novos objetivos, maneiras...). Se trata de um enquadramento e não de um método que visa reestabelecer o poder de agir. Para Vygotsky o indivíduo se torna sujeito quando faz sozinho (o que foi aprendido) de outro modo. O gênero profissional é o elemento que contém a história do coletivo de trabalho, é um instrumento para poder agir e formador de função psicológica. Como se fosse uma cartilha implícita que orienta determinado coletivo de trabalho, indica uma maneira de agir, conserva e transmite a história social. Ao mesmo temo é uma coerção e meio de agir. É uma variável que pode ser usada para a re-criação dos seus meios de agir.

