Marques, sob o pseudônimo R. M. Paiva, participou, agora em 2014 da coletânea Horas Sombrias – contos sobrenaturais, de suspense e de terror, da Editora Andross, com o conto intitulado: Batidas na porta. A boa aceitação de seu texto já rendeu o convite para mais uma obra coletiva daquela Editora. Pegue, então, carona nos textos contidos neste Encontro paranormal, o qual o próprio autor denomina de “meu bebê”, a fim de se libertar de seus horrores cotidianos. Mesmo que a sua residência seja um bom lugar para morar e falte luz à noite durante o jantar, e a mancha da infiltração na caixa d’água tenha alguma semelhança com um estrangulador à espreita, não tenha medo, pode ser apenas sua imaginação!
Encontro Paranormal
Rafael Marques
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Ver maisResena de Nelson Patriota
O realismo de parentesco naturalista que caracteriza tão bem o conto norte-rio-grandense, ao longo de quase um século de existência desse gênero entre nós, tem impedido namoros com outras modalidades da narrativa curta. O fantástico, por exemplo, tem despertado pouco interesse entre nossos contistas, aferrados à verossimilhança dos temas do dia a dia. As exceções são, portanto, obviamente escassas, dentre as quais alguns contos do nosso Colóquio Com um Leitor Kafkiano (Jovens Escribas, 2009), alguns relatos de Eulício Farias de Lacerda, de Pablo Capistrano, de Clauder Arcanjo, de Damião Gomes, e quase só isso. É inevitável, portanto, que este “Encontro Paranormal”, do estreante Rafael Marques, seja recebido com bastante estranheza pelos leitores norte-rio-grandenses, haja vista que se constitui num espécime exótico, literariamente, e mesmo, mórbido, do ponto de vista temático. Com efeito, a tensão nervosa tão ao gosto do século XIX, que deu nomeada ao alemão Hoffmann, ao francês Maupassant e ao americano Poe, com reflexos sobre o Machado de Histórias da Meia-Noite, parece plenamente ambientada nas páginas desse “Encontro” que nos propõe Rafael. Estamos, a anos luz de distância da literatura escrita com o único propósito de distrair aqueles que estejam carentes de uma literatura leve, de entretenimento (pensemos no conto “Um Casamento no Arrabalde”, de Franklin Távora, por exemplo). O minucioso trabalho descritivo dos contos deste livro, sem exceção, que buscam o único propósito de lançar o leitor num pesadelo renovado a cada página, é de um racionalismo sem paralelo nas letras potiguares. Os teóricos do gênero fantástico costumam divergir sobre os limites desse gênero, e chegam mesmo a admitir subcategorias, como o realismo mágico, o conto maravilhoso, o conto de horror, entre outros. Concordam, porém, que o gênero é sempre uma transgressão à ordem do mundo real, como demonstra o estudioso espanhol David Roas em seu A Ameaça do Fantástico (Unesp, 2014, tradução de Julián Fuks). Por isso, salienta, diferentemente de outros gêneros menos exacerbados, exige uma participação ativa do leitor, “porque o leitor precisa contrastar a história narrada com o real extratextual para considerá-la como relato fantástico”. Qualquer página deste Encontro Paranormal está impregnada de uma atmosfera sufocante que remete ao clima de um Drácula, de Bram Stoker, ou O Frankenstein, de Mary Shelley, na medida em que, por trás da aparente normalidade do seu entorno, um elemento estranho impregna sua atmosfera. Trata-se do “demoníaco”, esse desafio à razão e à inteligência, no dizer de Goethe. Para David Roas, aliás, a constatação da existência do demoníaco desestabiliza a ordem do mundo. Não admira que o mundo de Rafael Marques se mostre tão instável, se considerarmos que em seu mundo, no mundo perturbador deste Encontro Paranormal, o demoníaco se infiltra sorrateiramente por entre as frestas do cotidiano, se faz notar, depois, ditar as regras do novo jogo, cuja lógica e cujos limites fogem ao alcance da razão humana. Com isso, abre-se a passagem para um tempo de suspensão do princípio de realidade e escancaramento das portas do desconhecido. Na sua Introdução, Rafael Marques lembra que, a exemplo do que o fazem os escritores em geral, ele também visa a despertar emoções em seus leitores. Com a diferença de que a emoção que ele busca despertar é um pouco menos familiar e benquista classicamente, pois trata-se do medo. Por que o medo? Porque sim, pois é um direito de todo escritor escolher o arcabouço de suas histórias, sua temática e sua visão de mundo. O medo é, portanto, o personagem ubíquo dessas narrativas que evocam a presença de seres fantásticos interagindo com humanos em plena luz do dia, em alguns casos, em outros, quando “lá fora, a madrugada se arrastava sombria e silenciosa”. Se todo gênero literário finda por encontrar seus leitores, com Encontro Paranormal, desse novo escritor chamado Rafael Marques, começa uma nova saga literária nas letras potiguares a caminho de seu público. Nelson Patriota, escritor e crítico literário
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