Dentre tantos problemas que enfrentamos atualmente no país, um que nem sempre damos a devida atenção, e consequentemente vem aumentando de forma alarmante, é a falta de água.
Você pode imaginar um futuro onde a água se torna mais valiosa que o ouro, ou melhor dizendo, onde a água é tão rara e valiosa que se torna o novo ouro: o Ouro Azul?
Êxodo - A Saga do Ouro Azul é uma antologia distópica que nos mostra exatamente essa nova realidade.
Em 2065, as consequências do descaso quanto ao desperdício de água do passado alcança níveis catastróficos. A falta de água agora é extrema, e com ela não veio somente a sede, como também a seca, fome, desemprego e uma crise hídrica que causou um grande apagão começando pelo estado de São Paulo. O apagão faz com que todos se desesperem para fugir, causando um grande caos na cidade. Os que ficaram para trás, agora tentam sobreviver da melhor maneira que pode: roubando, brigando, matando, economizando e escondendo seu ouro azul.
Êxodo reúne oitos contos que, de uma maneira ou de outra, se mesclam e se completam. História de pessoas comuns com caminhos entrecruzados: um padre, uma criança perdida, um bombeiro, uma grávida... esses são apenas alguns dos personagens com histórias marcantes e que estão em lutando pela sobrevivência.
Além da falta de água, que é o foco principal, o autor consegue aliar a religião ao enredo também. Já que quase nada restou na vida desses sobreviventes, a fé torna-se o seu principal ponto de apoio. Tanto que a igreja é onde a maioria dos personagens tem seus caminhos cruzados.
"Enquanto a infância colorida corria por trilhas de terra seca, fingindo se esconder em bosques de rosas, a sede com sua foice muda percorria nossa comunidade, deixando intacta a paisagem oca, tocando somente nas almas dos mais fragilizados. O barulho da vida, o choro desesperado de fome, os gemidos sedentos dos doentes. A cada manhã mais famílias se partindo, rachadas como a terra debaixo dos nossos pés." (p.58)
Alguns dos contos são narrados em primeira pessoa, outros em terceira. A formula deu bastante certo, pois temos uma perspectiva mais ampla de tudo. E, claro, a escrita do autor não deixa a desejar.
Somos transportados para diversas situações decadentes e desesperadoras. Aliamos-nos e torcemos pela sobrevivência de cada personagem com o qual cruzamos. Conseguimos sentir todas as emoções transbordando das páginas. E, mais do que isso, vemos a real face da natureza humana.
Não tenho mais o que falar, a não ser recomendar a leitura do livro. Tanto como forma de conscientização quanto para abrir os olhos e nos fazer refletir sobre o que realmente é importante para nós. E, claro, não posso deixar de recomendar para os que adoram distopia.