A exímia jogadora de “Xadrez”
Ana Elisa Ribeiro já publicou bastante, escreveu muito mais, teve duas indicações ao prêmio Portugal Telecom e agora chega com tudo com seu livro “Xadrez”. Os poemas do livro são divididos em três seções: “peças”, “tabuleiro” e “jogadas. A palavra “xadrez” aparece tímido apenas uma vez, no terceiro bloco, em “Game Over”: “Era para fazer uma coisa. Fiz outra. Vou vivendo em xadrez.” A simplicidade poética de Ana Elisa é cativante e a torna muito senhora de seu eu-lírico. Os afetos estão presentes na forma do amor de mãe, do amor de mulher pelo seu homem, de amor por si própria. Em “O filho”, escreve: “Já pensou o que é sentir o meu pulso pelo lado de dentro?” Na cena do amor romântico, temos uma invocação de Marcelo Jeneci. Lendo o poema, pode-se ouvir Laura Lavieri cantando: “Quando te vi passar fiquei paralisado...”. Inspirado por essa canção é o poema “Domingo”: “um dia eu caso num domingo só pra tocar a canção do jeneci quero nem saber se você leu nosso horóscopo se tá chuva, sol brisa ou furacão quero nem saber se você vai dizer que sim ou que não” Por fim, a metapoética série “Da fama”: #1 quando eu ficar poeta famosa vai chover canivete de entalhar só palavra” Ao todo, a série tem quatro pequenos poemas. O primeiro é realmente o mais impactante. A disposição plural de Ana Elisa Ribeiro permeia toda a obra, que ora trata de figos de um modo meio surrealista, ora pratica o pastiche das histórias de princesas e, eventualmente, se rebela contra Deus como em “A terrível sensação”: “do absurdo de viver a mesma coisa em outra posição no tempo. Fico pensando: Deus é repetitivo. Deus curte disco arranhado. Deus volta a fita. Deus faz becape. Deus é o campeão do ioiô. Deus produz gente burra. Deus joga dados. Deus é diretor de cinema. Deus ensaia balé. Deus é maestro severo. Deus é mesmo só pai. O projeto gráfico do Filó Design é bastante atraente, chama o leitor para o livro, faz-nos sorver letras e palavras, ou seja, complementa o talento de Ana Elisa Ribeiro para chamar o leitor a jogar.


