O livro integra a coleção "Revisitar o Concílio", foi lançado no contexto das comemorações dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II. Embora a obra já tenha 10 anos de publicação, continua muito atual, e tem o claro objetivo de resgatar o impulso renovador deste que foi o maior evento eclesial do século XX, ajudando a compreender as marcas históricas que ele deixou na vida da Igreja.
O livro funciona como um guia de estudo e não apenas como uma simples reprodução do documento oficial. Na primeira parte, Almeida oferece uma profunda contextualização histórica e teológica, descrevendo a "pré-história" do Decreto. O autor detalha o "difícil parto" do texto, que enfrentou resistência dos bispos por apresentar, inicialmente, uma visão ainda muito clerical e dependente de modelos rígidos como a Ação Católica. Após cinco redações intensamente debatidas, o Concílio finalmente aprovou um texto que acompanhava a visão renovada de Igreja.
O autor também revisita as contribuições essenciais de correntes teológicas e pensadores anteriores ao Concílio, como Jacques Maritain, Yves Congar e Karl Rahner, que ajudaram a construir o que ficou conhecido como a "teologia do laicato", dando dignidade e autonomia à ação do leigo no mundo.
Uma das chaves de leitura mais fortes propostas pelo autor é a compreensão da Igreja como "Povo de Deus", ideia que ele compara a uma "revolução copernicana". A obra demonstra que, antes de haver distinção entre clero e leigos, existe uma igualdade fundamental conferida pelo Batismo e pela Confirmação.
A partir dessa base, o livro explora a verdadeira identidade secular do cristão leigo. Fica claro que os leigos são a presença privilegiada da Igreja no mundo contemporâneo. Antonio José de Almeida reforça que a complexidade da sociedade atual e a autonomia das realidades temporais exigem a atuação laical. Em muitos setores decisivos e de ordem ética, o apostolado do leigo é urgente, pois onde o clero não chega ou é escasso, a Igreja dificilmente poderia garantir sua presença sem a ação transformadora dos leigos.
Uma particularidade muito interessante e didática desta obra é o tom próximo que o autor estabelece com o leitor. Consciente de que documentos eclesiais podem soar técnicos ou frios no início, Almeida aconselha os leitores a começarem a ler o Decreto de trás para frente, iniciando pela "Exortação final". Ele a descreve como um grito apaixonado do próprio Espírito, um apelo vibrante capaz de puxar o leitor "pelo coração" para, em seguida, mergulhar na densidade teológica do resto do texto.
Em suma, o texto é uma ferramenta acessível, essencial e esclarecedora. A obra cumpre excelentemente o seu papel de traduzir a importância do apostolado leigo não apenas como uma função de "ajudante" da hierarquia, mas como uma vocação urgente, autônoma e própria, chamando os cristãos a serem o verdadeiro fermento de Cristo nos ambientes familiares, políticos, culturais e sociais do mundo moderno.