Paul Gauguin - Grandes Mestres da Pintura

    Folha de São Paulo

    Sol 90
    2007
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788599264386
    Português Brasileiro

    Em busca do paraíso - e de si próprio Colaboração para Folha Online Até completar 35 anos de idade, o parisiense Eugène-Henri-Paul Gauguin era um bem-sucedido investidor da Bolsa de Valores na França. Não lhe faltava nada. Tinha mulher, um bom dinheiro, uma casa ampla e cinco filhos. Pintava nos finais de semana, apenas por hobby. Mas, em 1883, ficou desempregado e resolveu que, a partir dali, iria viver das telas e pincéis. "Enfim, posso pintar todos os dias", comemorou. A amizade com um artista mais velho, Camille Pissarro, foi determinante para tal decisão. Pissarro tinha uma história de vida cheia de peripécias: nascido na ilha de São Tomás, nas Caraíbas, deixou os negócios da família para viajar para a América do Sul, antes de chegar a Paris e passar a dedicar-se exclusivamente à carreira artística. Foi ele quem sugeriu a Gauguin que um artista de verdade não podia se resumir a pintar nos domingos e feriados. Em 1883 Gauguin perdeu seu emprego em função da quebra da bolsa de Paris e achou que era chegada a hora de optar pela arte. A reviravolta exigiu um preço alto demais. Um ano depois, Gauguin não havia conseguido vender um número suficiente de quadros para pagar as contas domésticas, que se acumulavam. Quando as economias acabaram, viu-se obrigado a mudar para Copenhague, na Dinamarca, onde o custo de vida era mais baixo e podia morar com a família da esposa, Mette Sophie Gad. Mas o casamento não resiste a essas mudanças. Em 1885, Gauguin voltou a Paris falido. Morou em um quarto miserável de pensão e quase morreu de fome. Após dois anos de dificuldades, conseguiu dinheiro para comprar uma passagem de navio para a América Central e foi trabalhar, como operário, na construção do Canal do Panamá, com a intenção de entrar em contato com outras culturas. De lá seguiu para a Martinica. Quando, no final de 1887, retornou à França, tinha pintado dezenas de quadros, nos quais renegava o impressionismo e buscava a "pureza" da arte primitiva. Mas pegou malária e ficou ainda mais pobre do que quando partira. Fabricou cerâmica para sobreviver e vendia esporadicamente seus quadros contando com a cooperação de Theo, irmão de van Gogh, que era marchand. Morou com o colega Van Gogh em Arles e, em 1891, quando começava a desfrutar de relativo prestígio na comunidade artística de Paris, jogou novamente tudo para o alto. Foi morar numa cabana em uma aldeia no Taiti, nas Polinésias Francesas, onde casou com uma nativa e pintou uma grande quantidade de obras influenciadas pela paisagem e pelas cores locais. "Espero cultivar a minha arte em estado primitivo e selvagem", escreveu. Em 1888 Gauguin vai para a Bretanha, onde já havia estado em 1886, entra em contato com a cultura camponesa e com uma comunidade de artista, entre eles, Émile Bernard. A passagem pela Bretanha é determinante para a sua obra. Voltaria à Europa mais uma vez, em 1893, quando recebeu uma herança deixada por um tio. Com o dinheiro, organizou uma exposição de seus quadros taitianos, prontamente bombardeados pelos críticos, que recriminaram-lhe as "cores exageradas" e "irreais". Desiludido, Gauguin abandonou a França de uma vez por todas. Retornou ao Taiti em 1895, onde continuou a enfrentar problemas financeiros e a sofrer os efeitos de outra doença: a sífilis. Pobre e enfermo, teve atritos com as autoridades locais por causa das críticas que fazia à administração colonial e à catequização dos nativos. Em 1897, ficou novamente sem dinheiro para se manter e para comprar os remédios de que necessitava. Deprimido, chegou a tentar o suicídio com arsênico, logo depois de receber a notícia da morte da filha, Aline, e de pintar sua obra mais monumental, a tela "De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?", medindo 1,39m por 3,75m. Quando recuperou-se, escreveu: "Eu queria morrer. E pintei este quadro de um golpe só". Mudou-se então, em 1901, para um local ainda mais isolado, nas ilhas Marquesas, também na Polinésia Francesa, para onde os amigos de Paris enviavam-lhe apoio financeiro. Mas Paul Gauguin continuou a criticar o regime colonial e a fazer inimigos entre os catequistas da Igreja Católica. Em represália, as autoridades locais o colocaram na cadeia, sob a acusação de "difamação" e "desacato". Gauguin foi condenado a três meses de prisão. Já muito doente, procurou se defender da acusação, mas foi encontrado morto no dia 8 de maio de 1903.

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    Geovana picture
    Geovana23/06/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um homem apaixonado pela natureza e pelas cores

    A Folha de São Paulo conseguiu realizar o que os livros de história da arte, com sua necessidade de sintetizar todos os períodos artísticos e a trajetória dos artistas, geralmente não fazem: apresentar o pintor francês Paul Gauguin com detalhes. Não imaginava que ele, não tão destacado quanto Van Gogh (com quem viveu uma amizade turbulenta), pudesse ter tido uma vida até que interessante. Gauguin foi um homem movido por paixões. Amava as cores, a natureza e claro, as mulheres (dá para notar pela quantidade de taitianas que pintou e pelas relações adúlteras com certas modelos). Fugindo da pintura tradicional europeia, Gauguin encontrou no Taiti a inspiração que precisava para expressar seus sentimentos mais profundos e foi muito legal ver como ele se desprendeu pouco a pouco do Impressionismo e construiu um estilo próprio marcado pelo contraste entre cores quentes e frias, pela beleza serena das figuras femininas, a beleza das frutas, flores e animais e até pelo teor levemente mitológico e religioso que dedicou a algumas pinturas. Tudo isso o tornou único. Por mais que o pintor não tenha tido atitudes muito louváveis quando estava vivo (tipo deixar a esposa na Europa com os filhos e ir sozinho para o Taiti, se envolver com menores de idade e engravidar amantes), este livro não fica "passando pano" e sim o mostra como ele realmente foi: um ser humano como qualquer outro, com defeitos, limitações, etc, mas também, sobretudo, com um grande talento no uso da cor e na retratação do mundo natural. A análise das obras nesta edição torna a leitura ainda mais prazerosa. É um ótimo livro.

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