En Negra espalda del tiempo encontramos a un niño zurdo que escribe su nombre -Xavier- al revés, de derecha a izquierda, en un quizá no del todo involuntario deseo de retroceder; un hermano muerto; un escritor que, después de sobrevivir a la Primera Guerra Mundial, se cruzó en México con una bala perdida; una maldición en La Habana; un piloto mercenario y tuerto al que la muerte siempre pasaba de largo, y tantos otros, transportados al revés del tiempo, allí donde «aún no ha pasado ni se ha perdido, y quizá por eso no es ni siquiera tiempo».
Negra espalda del tiempo -
Javier Marías
A arte da desleitura
Se no primeiro volume de "Dom Quixote", o que se mostra é um leitor louco tentando viver de acordo com o que leu, no segundo há uma virada de jogo: colocam-se em cena os leitores do leitor louco, como esses leitores lidam com aquilo que leram no primeiro volume. Em "Negra espalda del tiempo" (1998), segundo volume do chamado Ciclo de Oxford, acontece algo parecido: Javier Marías retoma o primeiro volume, "Todas las almas", inspirado em sua vivência na Universidade de Oxford, e comenta os efeitos do livro em seus conhecidos oxonianos, como eles leram o livro e como "se identificaram" em determinados personagens. Há aqui um trabalho minucioso com algo vinha sendo abordado desde "El hombre sentimental", de 1986: o movimento tenso entre realidade e ficção -- é possível dizer onde termina uma e começa a outra? Essa questão reaparece nas “biografias” de escritores pouco conhecidos apresentadas ao longo do livro -- recurso que me fez pensar num romance lido no ano passado, "Vulgo Grace", da canadense Margaret Atwood, publicado quase na mesma época (em 1996). A Atwood recupera a história real de uma jovem condenada no século XIX como mentora de um crime, recolhe diversos testemunhos dessa história (notícias de jornal, autos do processo, ilustrações...) e a recria ficcionalmente, intercalando a voz de um narrador masculino (um protopsicanalista que vai visitar a moça na cadeia) e a voz da própria Grace, algo inédito até então -- em todos os registros que sobraram, a voz da jovem está sempre filtrada por vozes masculinas. O Marías, por sua vez, parte da biografia de um escritor que ele já havia contado em "Todas las almas", John Gawsworth, e dela vai "puxando" outras biografias, todas acompanhadas por notícias, fotos, anotações... O curioso é que tanto a Atwood quanto o Marías não se limitam a reproduzir esses testemunhos, mas os "desleem", abrindo fendas no discurso ali presente. Em ambos os casos, o resultado é um passado fecundado pela imaginação: aquilo que parecia estar encerrado, apreendido e esquecido volta a se mostrar vivo e inquietante. Isso dá o que pensar: o que aconteceria se os leitores decidissem aplicar esse princípio às narrativas que invadem suas vidas cotidianamente (narrativas que contam o que houve, que enquadram os acontecimentos em determinada perspectiva e que, além disso, soterram o passado numa velocidade impressionante)? E se o mundo "conhecido" fosse deslido?
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