Eu estou com sérias dificuldades para redigir essa resenha, como sempre parece acontecer quando o livro mexe com a minha cabeça. Positivamente, neste caso, porque A Retomada da União foi excelente como já era esperado; o desfecho digno que a trilogia Anômalos merecia.
Depois do caos no comício, Sybil Varuna se encontra refugiada com os amigos, sem entender o que está acontecendo e qual é o lugar seguro para onde a estão levando; para seus familiares e para seu inimigo, ela está morta. Para um levante silencioso que acontece entre a rebelião anômala e o governo humano, ela está mais viva do que nunca.
Recém-descoberta filha de uma importante peça na conquista de liberdades para os anômalos, Sybil se vê frente a frente com a oportunidade de lutar pelo que acredita ser certo para ela e para todos que ela conhece, mas vai descobrir que a liberdade nem sempre vem com o jogo limpo. Especialmente quando o outro lado da moeda é Fenrir, que está determinado a conquistar o que é de direito dos anômalos derrubando a ordem que ele encontrar pela frente.
Eu nem vou reler esse resumo porque sei que ele ficou um caos. A sinopse fala muito mais do livro por si só, e o livro, obviamente, fala muito e muito mais.
A narrativa da Bárbara ainda tem os seus trejeitos, e logo de cara nos vemos reconhecendo a familiar voz de Sybil, a anômala que quase morreu num naufrágio e agora está de cara com uma revolução política. Política, sim, porque esse livro é muito sobre acordos e escolhas e embate de ideais que não combinam com o que os povos precisam, especialmente os anômalos, reprimidos e humilhados por tanto tempo de governo.
Em um lado está Fenrir que, com a morte do Almirante no atentado do comício, assume-se como vítima das circunstâncias e o coitado que pode ajudar todos a deixarem de serem vistos como outras vítimas. Ele é o rosto radical, mas contido em sua posição de mártir, um líder bruto atrás das cortinas e benevolente para quem lhe interessa ser.
"Fenrir entendia que não importava o preço que precisasse pagar, a liberdade é mais importante."
Idris, que Sybil vem a conhecer - e se tornou, de longe, uma das minhas personagens favoritas - é a pacífica ordem política que um novo mundo precisa. Ela sabe fazer escolhas, sabe aceitar riscos, e sabe sofrer por eles. Idris perdeu um membro importante de sua família, e o luto que a guia é a ideia de que a morte dessa pessoa pode ter algum significado se eles mudarem o que precisa ser mudado.
Há cenas de ação, há romance e há estratégias de uma guerra silenciosa na medida certa. O livro segue um ritmo calmo, embalado por alguns momentos de tensão, e termina em alguns capítulos de tirar o fôlego. Eu realmente não me lembrei de respirar em um deles, porque foi desespero do começo ao fim!
O crescimento da Sybil e sua forma de entender e aceitar (ou não aceitar) o que está acontecendo ao seu redor são coisas muito admiráveis nesse último livro. A relação dela com os próprios poderes, com o que sobrou da sua recém-descoberta família. E sobre o trágico passado envolvendo o seu nascimento - o fato de ela se manter tão próxima dos amigos e da velhinha que a criou no orfanato porque perder as pessoas que ela ama é seu maior medo, é tudo muito dela.
Desde o começo do livro, você vê cada pedacinho da Sybil ali, mais forte e mais determinada, mas ainda a garota das primeiras páginas de A Ilha dos Dissidentes.
Outros anômalos, como Andrei, Hannah, Hassam e Leon, tiveram seus melhores momentos durante o decorrer da trama. Leon especialmente, porque ele é o meu favorito desse livro. Eu só queria abraçá-lo o tempo todo e prometer que tudo ficaria bem. Hassam está mais no background, mas tem suas cenas impactantes, especialmente em relação ao Leon. Não vou falar muito a respeito, então deixo o suspense no ar. Hannah foi um amorzinho o tempo todo, forte e decidida e extremamente dedicada às pessoas e à causa.
Idris, como líder, foi excepcionalmente bem construída. Ela tem força e tem fraqueza e tem aquele que de mistério que te deixa pensando sobre sua história e o que a impulsionou até chegar na liderança de um levante; ao seu lado, a figura que mais se destaca, não tão positivamente porque a detestei desde o primeiro momento, é Cléo. Ela tem parentesco com a Sybil, e acha entender da menina melhor do que ela mesma; os conflitos emocionais entre as duas rendem boas discussões.
"Por que sinto vontade de gritar enquanto caminho, frustrada com o fato de que sempre parece haver a necessidade de um sacrifício para que as pessoas possam ser livres?"
A parte política e a guerra civil instaurada foram minhas favoritas. A Bárbara trilhou um caminho para esses acontecimentos desde o primeiro livro, desde a missão de Sybil, desde o incidente no metrô no segundo volume; tudo estava lá, esperando pelo estopim. Há muita tensão e incerteza, e o final da trilogia foi bem encaixado no que a história pedia.
Não é feliz, mas não é triste, é um talvez. A Retomada da União (e a trilogia Anômalos) entrou para a minha lista de 'melhores distopias que você pode querer ler'.