Maravilhosas Distopias é uma antologia, ou seja, um livro que reúne vários contos com uma mesma temática, no caso, o tema é distopia.
O primeiro conto “Surface Down“, de Ivan Y. Sikorski, explora um mundo em que houve um golpe, em que esse grupo A Bolha conseguiu assassinar os presidentes de países chaves e implantar um governo totalitário em que obrigada a sociedade em se organizar em castas, a resistência chamada Pegaso tenta livrar as pessoas desse repressão militar e reverter o processo.
No segundo conto, “A Liga Invisível“, de L. A. Nuñes conta sobre um mundo em que houve uma crise hídrica, provocando escassez e fazendo com que a nossa Amazônia fosse o lugar mais procurado pelo mundo todo, o que provocou uma espécie de 3ª Guerra Mundial até que os Estados Unidos veio e dominou tudo com mais guerra, e rebeldes brasileiros estão tentando retomar seu país um estado de cada vez e tirá-lo desse governo totalitário.
O conto “Asfixia“. de Lu Days é provavelmente um dos mais interessantes da antologia, e revela um mundo em que as pessoas excluem da sociedade jovens com talentos especiais e relata que o Estado tem tanto poder sobre as pessoas que elas não questionam as autoridades e vão pra guerra sem perguntar “por quê?” ou “contra quem?”.
No conto seguinte, “Lei do Mais Forte“, de Claudia Mina, um dos meus preferidos, é sobre um mundo pós apocalíptico em que as pessoas têm que viver dentro de ambientes fechados, pois o ar, a terra e tudo o mais está poluído. Achei um conto ótimo e com uma narrativa diferente!
Em seguida, em “A Abdução de Lucas“, André Luis Pinto conta uma história de abdução alienígena… Só pra dizer que aliens podem ser gostosas. Em “A Chuva“, Gabriela Leão narra um apocalipse, do ponto de vista de um trabalhador normal e seus pensamentos sobre uma enchente que está tomando conta de toda a cidade.
“Crimes Cibernéticos“, de Davi M. Gonzales conta uma história sobre o combate virtual à pornografia infantil em um mundo futurista em que a pornografia evoluiu a um nível de quase realidade, com alguns vídeos conectados ao cérebro das pessoas permitindo que elas possam também acessar as sensações das pessoas no vídeo e, assim, realizar suas fantasias de fazer coisas ilegais, no caso do conto, é a pornografia infantil. Achei muito interessante a premissa e é obviamente um tema importante, mas não sei se gostei de como ele acabou…
Márcia Dantas escreveu “Sobre Corações Partidos e Curas Indesejadas“, um conto lindo e sensível sobre uma cientista que procura a cura para uma doença sexual que muda o comportamento das pessoas. É belíssimo *-*-* (apesar de ser cientificamente equivocado se considerarmos a ciência que conhecemos rs)
“O Refúgio“, de Amauri Chicarelli narra sobre um pós apocalipse nuclear, que deixou o ambiente todo contaminado por radiação e as pessoas tem que ficar trancados em abrigos, separados por grupos ideológicos? Premissa poderia ter sido melhor explorada e desenvolvida…
O conto “Mais Um Pedaço de Carne” de Jean Thallis fala sobre prostituição em um futuro em que o homem pode comprar meses e provavelmente até anos com uma mulher, tendo que se comprometer em prover coisas básicas, como alimentação, higiene, entretenimento, entre outras. A prostituição já é um tema polêmico, com muitas divergências e tratado com cuidado e respeito, mas nesse conto o autor não teve cuidado nenhum, pelo contrário assumiu o objetificação da mulher e o machismo, fazendo do personagem principal um tremendo babaca arrogante.
Em alguns aspectos, o conto tem um clima de suspense sobre quem está controlando quem e no final não temos resposta para essa pergunta. A resposta do final é voltada para a maior preocupação do homem: se ele está fazendo sexo com uma mulher real ou um robô humanoide… Porque afinal, o importante é que a mercadora seja carne de primeira… Enfim, depois de todas essas declarações de machismo grosseiras, obviamente que imaginei um final Ex-Machina (2015) que não aconteceu.
E por fim, o conto de Maurício Coelho, “Locus Amoenus“, é sobre um jovem da Resistência que está tentando fugir da cidade chamada Metrópole para ir em busca de sua amada.
O que me incomodou nesse livro foi que não acho que todos os contos nele são distopias. Acho que a principal diferença entre apocalipse e distopia é que apocalipse é a coisa errada acontecendo naquele momento, é a enchente acontecendo ou o começo da invasão alienígena, é a falta de recursos no presente momento. A distopia pode ser uma forma da sociedade/grupo responder e se reorganizar após o apocalipse, seja ele causando por guerras nucleares, acidentes naturais ou que seja.
Então, nessa antologia tem alguns contos falam de apocalipse, outros contos falam de governos autoritários, e outros que são realmente a minha ideia de distopia. Foi muito interessante a reflexão que alguns contos trouxeram, mas tem uns que não chegaram a lugar nenhum, e isso é meio problemático porque a melhor parte das distopias é a reflexão sobre a sociedade e a crítica social que podemos tirar delas *-*-*
Meus contos preferidos foram: “Sobre Corações Partidos e Curas Indesejadas” da Márcia Dantas; “Lei do Mais Forte“, da Claudia Mina, e o “Crimes Cibernéticos” do Davi M. Gonzales.
Edição: O autor Jean Thallis, de "Mais Um Pedaço de Carne", entrou em contato comigo e disse que ele tinha a intenção de fazer uma distopia que criticasse o machismo e a objetificação da mulher. Minha crítica a esse conto permanecesse, acho que o conto não foi cuidadoso com o tema e em nenhum momento percebi esse posicionamento crítico, nem contra, nem a favor do que o personagem estava falando. Na verdade, como o personagem tem sempre a última palavra, me pareceu muito mais que o autor era a favor, mas como ele disse, não era a intenção. Um final Ex Machina teria resolvido o problema, mas não aconteceu, o que é uma pena.