Ouroboro ou o Deus dos famintos
“O Deus dos famintos” (Patuá, 2015) é o livro de estreia do pernambucano Antonio Souza da Cruz, nascido em Surubim. O livro traz algumas referências pessoais, como a necessidade de correr o mundo, ainda que para constatar que tudo está errado em todo lugar. Leia no último poema o trecho seguinte: “Os comerciais devem também fascinar os moradores de Bangladesh. Novas formas de fome – onde saciá-las? O arroz tailandês não é a resposta. “Talvez o que irmana, o que aparenta Bangladesh com Salvador e o Rio de Janeiro seja a prostituição de crianças. Meninas esperam aquele que virá de longe. Meninas oferecem seus corpos delicados por um prato de comida. Isso acontece no Caribe, em São Paulo, na cidade de Cali, em Pretória, em Bangkok, na cidade milenar, sobre as pegadas do Buda. Bangkok é milenar, São Paulo não, mas um mesmo olhar nos irmana. Desejamos o centro.” Os nomes de cidades estão no livro por toda parte, especialmente São Paulo e Recife, que têm poemas próprios. Outros, que tratam de matéria poética de cunho cotidiano, também impõem sua beleza, como em “Flor”: “Vasto o botão guarda a flor guarda o tempo guarda a vida guarda a flor guarda o tempo guarda a espera guarda o mistério não guarda flor exposta em gozo o tempo presentificado [...]” Um belo poema em prosa consta no livro como “A Orla”. “Queriam o nome de nossos líderes. ‘O que nos guia’, dizíamos, ‘é a nossa fome e a nossa sede’”. Esse é um pequeno excerto do texto. Tratar da fome como o eu-lírico engendrado por Antonio Souza da Cruz parece, numa primeira leitura, um pouco chocante, por que esse eu-lírico parece leviano em tratar de uma enorme dívida da humanidade consigo própria, isto é, a erradicação da fome, e poetizar sobre essa fraqueza é uma forma de expor um segredo como quem o tem com naturalidade demais. Mas “Ouroboro” é o nome do poema que dá nome ao livro. Ouroboro é o nome do símbolo da eternidade, da cobra engolindo a própria cauda. Vale a pena ler o poema: “Salve o primeiro, Adão aquele que não sentia fome. Salve o deus dos famintos, dos loucos, dos áridos salve Eva, a maçã, Eva a natureza a loba que nos alimenta e nos caça. Salve a morte a silenciadora das infinitas vozes que habitam cada um de nós. Salve Gênesis e os universos criados por nossa angústia matéria restante em nossos corpos”. É delicado pensar numa simbologia tão rica quanto a que há nesse poema. Um signo do ocultismo (ouroboro), um homem primevo que não tinha fome, e depois um deus que põe lado a lado os famintos, os loucos e os áridos. Por fim, uma saudação a Gênesis por ter nos propiciado a oportunidade da angústia em nossos próprios corpos. Aí, sim, Antonio Souza da Cruz soube justificar plenamente o uso poético e retórico de seus poemas. Resta ao leitor, ao finalizar o livro, a esperança de que, brevemente, não seja mais necessário um deus de famintos.
