É sempre difícil falar de poema visual. Resenhar um livro de poesia visual é virtualmente impossível. Fica mais difícil quando, além de visual, ele é sinestésico até atingir a música. Cada letra, cada pixel, cada acorde tem de ser considerado, ou, melhor dizendo, apreciado, sentido. Se for bem feito, sem ser pretensioso, o livro em questão pode ser uma obra-prima. E assim é feito o livro “de dentro” (Patuá, 2015), de Joana Hime, ilustrado por Branca Escobar, multidesigner, e com quarta capa do músico Chico César.
Em primeiro lugar, não há uma poesia feita para uma ilustração ou uma foto tirada para ilustrar um poema. Texto escrito e visto estão entranhados, por dentro. Um pão só é um pão na poesia de Joana porque é uma textura na foto de Branca. Há também a utilização de recursos mais simples de visualização, como no poema “pois ia” (foto) ou “chuva sol ar”. Este tem o título em branco sobre página preta à esquerda e o poema enrodilhado na página branca impressa em preto ao lado: “te vivo bem viva/ desejo que mata/ te versejo na ida/ na volta sol nada/ te guarda na chuva palavra aprumada/ só sílaba vinda/ poema que nada/ ressoa o correio/ aviso ao meio/ avento um volteio/ findado o recreio”.
É importante destacar a questão da metapoesia, coisa tão enjoada atualmente, na poesia de Joana Hime. Ela faz metapoesia com competência e sem a arrogância que se costuma notar em muitos dos poetas emergentes da atualidade. É que, “de dentro”, no cérebro do seu eu-lírico, tem a palavra. Essa palavra sai pela boca, passando por diafragma, cordas vocais, língua, lábios. E chega para fora com naturalidade. Essa é a palavra vulgar, mas já é poesia. Trazer o poema “de dentro” é metapoesia. Ter a exata noção de que o poema vem “de dentro” é metapersonalidade.
Mas o livro de Joana não tem só metapoesia, não. Tem muito da relação do corpo com o mundo e com o outro, como no poema sem título: “ meus olhos/ engaiolados aos seus/ arregalam a GULA LIVRE/ DE/ CADA/ DIA”. No entanto, o mais encantador na obra é, sem dúvida, a fluência poética e melódica de muitos poemas, como em “porta de casa”:
“te espero no longe
entre portas entreabertas
enquanto o perto aperta
te desperto no peito aberto
coberto de fatias de ausência
enquanto o aperto seca
te espero no ontem
entre vistas, aonde
estanca a coberta da ausência
ressecada
enquanto o perto aperta
me despeço em um pé de rabisco
em folha da resenha desfeita
uma mal traçada linha refeita
e no entanto o perto aperta
te escrevo ao meio
entre lados quadrados
porque palavras são o que nos restam
quando longe
te tenho no abstrato sonho
tragado da saudade da pedra
enquanto o peito seca
te espero inteiro
na paisagem da passagem
das palavras apertadas
das tuas linhas margeadas
te sou
o verso inverso da palavra
num avesso que me escapa
te sou em mim”
Poema que pede imagem, e é a de uma maçaneta em vidro e pedras.
A poesia de Joana Hime, tão bem composta juntamente com as fotografias e ilustrações desconcertantes de Branca Escobar, chamam a gente porque, em, “de dentro”, “há feto”.