entre o elevador e a praça

    Fáttima Britto

    Patuá
    2012
    170 páginas
    5h 40m
    ISBN-13: 9788564308374
    Português Brasileiro
    Resenhas (1)Ver mais
    vivian aurora de moraes bragagnolo picture
    vivian aurora de moraes bragagnolo01/09/2015Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Sufocação e desespero entre o elevador e a praça

    “entre o elevador e a praça” (Patuá, 2012), de Fáttima Britto é um ótimo livro de contos. Elementos se repetem, como o tango, a luneta e o abandono, e o interessante é que os contos “conversam” entre si. Depois de escrever um conto, corre-se o livro e encontra-se de novo aquela primeira personagem, já vista de um outro ângulo. Regalo de ler! Fátima também tem o dom de começar um conto com um detalhe, algo que se esquece rápido, para depois demonstrá-lo em sua totalidade lírica (por que não?) ao final do conto. Os contos não são nada “fotos”. Tem muita puta, mulher que largou marido, marido que largou mulher e filhos. A figura da ex-puta que não consegue a felicidade no casamento é constante. Pode-se dizer que este é um livro de temática feminina, pois elas são apresentadas em sua totalidade e os homens não: são fragmentários, dispersos, fracassados. É muito importante registrar que Fáttima tem um estilo pessoal muito bem consolidado e que se rege por toda a obra. Aqui, apresento um excerto de “A cicatriz, o mar”: “[...] Agora apenas sonhava não ser quem era. Sonhava acordar morta ou apenas morrer por alguns meses. Sabia. Por alguns meses ninguém procuraria seu corpo. Ninguém procuraria seu corpo. Ninguém seu corpo. Seu corpo, mar de orgasmos, seu corpo divino e prenhe, um dia prenhe de mim. Ninguém” Mas é na amarração dos contos numa temática própria, juntamente com esses laivos poéticos, o que melhor se pode dizer dele. Afinal, “entre o elevador e a praça” poderia ser apenas um dos contos do livro, mas nos 27 contos de Fáttima encontra-se um elevador, normalmente com espelho e sensação claustrofóbica, e a praça que vai sendo engolida pelo progresso. É curioso que, lendo o livro, algumas histórias parecem se passar em cidadelas muito pequenas; outras, numa periferia, e em outras, à beira do mar. Não importa. Seja onde for que esses elevadores estilhacem pessoas que se têm em alta conta, e sendo que o praça promova mais desencontros que encontros, vive-se, hoje, a praga carnavalesca dos corpos na rua e a desgraça solitária dos apartamentos. Fáttima capta tudo muito bem, ouvindo tango e olhando luneta, abordando reinos mágicos com princesas. O sucídio é outro tema recorrente, assim como o assassinato, em menor grau. Vale a pena ler um trecho de “A Lua e eu ainda menina”: “Isso importa? Já não sei. A lua não desiste de me convidar a bailar lá fora. Venceu-me. Não vou me jogar pela janela em busca de meu reflexo. Vou devagar procurar o moço do banco da praça. Ele me olhou na tarde de ontem. Ele me olha há incontáveis tardes e meu medo apenas me empurra na direção de suas mãos. Não nasci pra carvalho. Em meio de códigas e bíblias e discos velhos, quero gritos de criança, quero continuar, quem sabe encontrar minhas próprias músicas. A lua não iluminara meu corpo dançando rente ao chão”. Como se pode notar, Fáttima tem todo o domínio da sua ténica de ser sutil ao contar as coisas mais escabrosas. Ela dá voltas. Faz você se esquecer ou se confundir – até você achar o sentido de cada conto. Cada um dos 27, uma preciosidade.

    curtir

    Estatísticas

    Avaliações

    4.5 / 2
    • 5 estrelas50%
    • 4 estrelas50%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%