"Vão dos bichos" (Patuá, 2015) é o segundo livro de Izabela Orlandi. Sim, ele trata de bichos: gaivotas, felinos grandes e pequenos. Mas ele transcende: o vão é a vagina nos poemas eróticos do livro, assim como neles o falo é vão, pois nunca leva ao preenchimento.
A obra é dividida em capítulos, o que parece desnecessário: talvez ela até fluiria melhor sem eles. Ela vai num continuum que começa com um poema de abertura:
"era claro e havia o bicho
e só quando escuro
havia o homem
era claro e havia o silêncio
e só quando escuro
havia a palavra
você insistiu
em negar todas as noites
e a exatidão
me perguntava
todos os significados
mas eu te fiz o escuro
de olhos abertos
sente só: o ar que eu
passei entre os seus dedos,
só assim é bicho e homem
é silêncio e palavra
e mar."
Um poema lindíssimo é "voz do mundo", do qual se transcreve apenas o pequeno verso: "em meio aos mortos pendurados/ nos varais/ o desespero escorre sem consolo".
Em "Carne viva", chama a atenção o seguinte poema:
"você chegou de unhas vermelhas sapatos brancos
cabelos trançados
querendo apagar incêndios
aqui tem um furo na parede, Ariadne
baixinho falou
você chegou de muito longe e entrou
violenta arrastando três contas de um amor passado
entre, querida, neste nefasto vão, Ariadne
te autorizou
devidamente autorizada lambuzei suas coxas
com o cheiro grudento da carne dos dedos
que puseram a mesa sem charme
ah, que vontade de morrer!
olha que qualquer vento não é tempestade, você bem teria escrito
no vapor do box do banheiro, caso eu tivesse te confessado
preferi te recortar e passar glitter azul
na cara dos santos depois colar
um por um no velame como fungos
que ali se alojam e decompõem
a sua matéria orgânica, Ariadne
e depois, antes de dormir, absorvi
todos os seus fluidos, seus olhos, seus furos
desperte logo os seus instintos montada no meu cavalo
morto que pintou suas unhas de vermelho
desperte logo, Ariadne
que a face do amor é dupla e arde"
Aqui, tudo parece acontecer à revelia de Ariadne, e mai uma vez temos o desencontro sensual.
Sobre bichos como metáfora, eis um poema curto que destoa um pouco da obra como um todo, mas é extremamente elegante:
"eu em versão felina
gata de rua,
oblíqua.
bebo o leite quente,
mas faço a morada
no telhado frio."
Para terminar esta resenha, vale destacar os dois poemas do final do livro "inocência ou o desejo do risco". Neles, as metáforas estão mais maduras, o desejo é mais intenso e a frustração também é maior. Só não se frustra quem lê esta obra, "Vão dos bichos", de Izabela Orlandi.