Com a elegância que lhe é característica, Beatriz Bracher nos atira, de supetão, ao inferno do jovem Félix, um sofrido estudante mineiro que enfrenta, na composição de sua dissertação de mestrado, em Copacabana, o assombroso poema Paraíso perdido, de John Milton.
Dividido em quatro partes (Outono, Inverno, Primavera e Verão), Anatomia do paraíso dispõe de um protagonista denso, complexo, que com o passar do tempo vai ganhando características do autor que estuda (curiosamente, a mais visível delas é o problema na vista que lhe obriga a contar sem ver, a uma menina, aspectos do Paraíso perdido – criado por um Milton já cego e escrito por sua filha, que escutava o que ele lhe ditava).
Entrelaçando as tentativas do atormentado mestrando de esmiuçar a origem humana cantada em Paraíso perdido com as vidas que acontecem (e que se originam) fora do apartamento do rapaz, no inferno real, Anatomia do paraíso nos machuca ao mesmo tempo em que nos acaricia: tal qual a literatura; tal qual a existência.
Trecho do livro:
“Ele acende a luz do abajur da escrivaninha que, junto com a lâmpada do teto, ajudam-no a enxergar alguma coisa. Começa a desenhar no verso de uma folha usada. Desenha a linha do espaldar da cama; o travesseiro encostado na parede, parte da cama com o lençol amarfanhado, uma linha para o encontro do chão com a parede. Refaz o desenho duas vezes, não consegue saber se ficou bom por causa de sua visão deficiente. Enxerga sem nitidez os contornos da cama, o volume do lençol e do travesseiro, e não é capaz de discernir quase nada do seu próprio desenho. Gostaria de ter um prego e uma pedra mole e nela gravar o pouco que enxerga para depois poder ver com aponta dos dedos o que desenhou.” (p.169)