Eu tinha ouvido falar do Jung em relação à psicologia analítica, a qual ele foi resumido, e tinha uma curiosidade leiga em descobrir mais sobre ele, seus estudos, seus livros formativos.
Mas isso aqui foi demais. Ler esta biografia foi uma verdadeira experiência!
Sonu, autor do livro, é professor de História de Jung no Centro de História das Disciplinas Psicológicas, no University College de Londres, e é considerado um dos principais historiadores de Jung. E o seu texto não se apega a questões pessoais da vida de Jung (o que considerei muito bom, porque, no geral, não tenho esse interesse), mas trabalha exatamente o aspecto intelectual, de pensamento.
O que é muito incrível de Jung é que, além de ser, evidentemente, um homem absurdamente inteligente, era aberto a um conhecimento holístico sobre o ser humano, todos os fenômenos, então, religiões, filosofia, magia, alquimia, todas as formas de conhecimento da mente humana. E, principalmente, ele realizava autoanálises constantemente. Fica-se com uma sensação de que a loucura domina cérebros brilhantes. Ir até o íntimo do conhecimento pode gerar diversas perturbações. E isso é muito claro aqui. Jung registrava seus sonhos, seus pensamentos, suas visões, e buscava gerar todo um conhecimento a partir disso. Então foi uma vida de estudo, pesquisando o homem, e ele incluso, no seu "resíduo inexplicado".
Não imaginei também que iria encontrar tanta referência a Fausto, de Goethe. Foi realmente uma surpresa. Isso porque, de certa maneira, Jung incluiu Fausto na sua "linhagem espiritual" (composta de personagens históricos e literários, na qual ele inclui Paracelsus, médico suíço, e Nietzsche. - p. 198), e isso obviamente não significa pacto com o demônio, a que foi resumida a questão fáustica (levando ao pé da letra, de um encontro e uma "troca" com o diabo), mas a uma intelectualidade e um "desespero" científico de ir além, que, de certa maneira, não se prende a nenhum limite. Aí a gente poderia relacionar com o homem no Paraíso, que aceitou a oferta do demônio e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Eu fiquei bastante curiosa para conhecer o Livro Vermelho e os Livros Negros, que são quase como diários de Jung, pelo que entendi. Então são composições que ele fez a partir desses estudos, mormente das autoanálises, incluindo desenhos, pinturas, que se relacionavam com os sonhos, com as visões, enfim. Talvez um "commonplace book" da atualidade.
Sobre o Livro Vermelho, o Liber Novus, Sonu aponta que "surgiu de uma crise da linguagem e de uma busca paralela por encontrar expressão adequada para falar à e sobre a alma.
"(...) interessa-me muito mais indicar as pistas e possibilidades de experiências, em lugar de estabelecer fórmulas intelectuais; estas últimas não passariam de um emaranhado inútil de palavras". - p. 131, Jung