O trabalho como vida

    Dietmar Kamper

    Annablume
    1998
    70 páginas
    2h 20m
    ISBN-10: 8574190144
    Português Brasileiro

    Trabalho como vida, trabalho como jogo, trabalho como vício ou virtue, trabalho como amor. O filósofo e sociólogo da multidisciplinaridade Dietmar Kamper aborda com sensibilidade a nossa relação complexa com o universo do trabalho, buscando mostrar como nos tornamos cada vez mais desamparados diante da invasão do trabalho em todos os âmbitos da vida. Registro de um curso ministrado em São Paulo em 1996, promovido pelo SESC e pelo Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Semiótica da Cultura e da Mídia, da PUC, de São Paulo, o presente livro é uma surpreendente reflexão.

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    Dan Zucato13/05/2026Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Bom livro com boas ideias e com certa 'viajada' no final.

    Um bom livrinho de apenas 70 páginas que foi feito a partir de palestra(s) do professor Dietmar Kamper, alemão. O livro é de 1997. Ele começa bem, com reflexões sobre as sociedades ocidentais (principalmente alemã) que já sabemos, como o crescimento da insensibilidade perante ao próximo, bem como a governança da razão em um mundo guiado pelo dinheiro. Interessante como ele liga palavras alemãs como salário e recompensa, ou castigo e pena para explorar como estes termos eram vistos antes, no sentido de que o salário era uma recompensa pelo esforço ou tempo despendido (sacrificado). Achei interessante a reflexão dele de que a astúcia e razão, que originalmente teriam expulsado o homem do paraíso, são agora "os instrumentos por excelência para superar e esquecer a expulsão do Paraíso". No tópico 'trabalho e jogo', importante notar como já no final dos anos 90 ele teve a mesma percepção que Bauman e Buyng-chul Han, de que 'o que não gera renda ou emprego deve ser descartado, deixado de lado". Ou seja, há certo tempo vivemos com essa homogeneização da ação ou do 'jogo' do homem. Segundo o autor, esse seria um problema, pois somente no jogo, quando o homem é 'Homo Ludens' (Huizinga), é que ele é "Homem, ser humano, na acepção integral da palavra"(Schiller). Outro fato que Kamper já percebe no final dos anos 90 é a característica de ultrapassagem de fronteiras do trabalho (ele usa o termo desmedido). E essa característica vem acompanhada de uma velocidade cada vez maior, de forma que ele explicita a importância do lazer e ócio contra a azáfama (grande pressa) da vida do trabalho. O mercado tira nossos ritmos corporais do centro de nossa vida e coloca o ritmo do trabalho em seu lugar. Ápice do livro: a relação entre trabalho, amor e morte. É até difícil de explicar em uma resenha. Kamper idealiza que o preço do progresso laboral é uma 'autofagia' de recursos (humanos e naturais), rumo a um autoaperfeiçoamento do homem. Por outro lado, o amor, em seu estado puro, é uma total doação de si ao próximo, ou seja, seria como ir em direção à morte, pelo outro. Dessa forma, trabalho e amor tendem a nos fazer, no final da vida, ter gasto nossas energias (vital, temporal) de forma plena. E aí a morte passaria a ser um repouso da 'máquina' que já cumpriu sua função. Por outro lado, há o seguinte paradoxo: vivemos em um conflito diário: somos finitos, mas aspiramos pelo eterno (Unamuno). O trabalho evita a morte através da produção e do progresso. Já o amor, em sua forma mais pura (Rilke), aceita a perda e a libertação (de si e do outro). Quando essas duas direções se cruzam, o homem reconhece sua finitude. Ele diz 'sim' à morte e isso é o reconhecimento de que somos parte desse processo terreno e cruel, mas necessário. Recomendo a leitura, mesmo com a viajada no final, falando de sonhos e tal.

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