Parte I:
Os Estados Unidos já não se podem apresentar como a grande democracia. Seus valores políticos e morais foram golpeados pela revelação das torturas em Abu Ghraib e no campo de concentração de Guantánamo. Seu poderio militar, quanto mais enorme, com uma capacidade de destruir sem paralelo na história, mais se torna inútil, porque não pode ser aplicado. Os resultados anulariam todas as vantagens econômicas e políticas. Seriam inaceitáveis. Os políticos de Washington sempre foram tentados por uma illusion of omnipotence, como observou Eric Hobsbawm. Porém, a continuidade do regime revolucionário em Cuba demonstrou que os Estados Unidos não podem fazer tudo o que querem, ainda que possam destruir tudo. A guerra no Iraque comprova, mais uma vez, depois da Guerra do Vietnam, que eles não têm condições de impor um controle efetivo sobre um país que resiste e, menos ainda, sobre o resto do mundo, onde os focos de contestação se propagam cada vez mais.
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Parte II:
Solução diplomática para a crise (dos mísseis) havia, pois, secretamente, Kennedy podia haver negociado com Kruchev a retirada dos mísseis de Cuba em troca do desmantelamento das bases na Turquia e na Itália, como fora sugerido, inclusive por McNamara, durante as reuniões do Ex Comm, e por ele próprio na conversação com o embaixador da Grã-Bretanha. Ele, contudo, colocou o mundo à beira do holocausto com o objetivo de obter ganhos na política interna dos Estados Unidos, para que o Partido Democrata fizesse a maioria do Congresso nas eleições de novembro, e compensar a humilhação que sofrera com a derrota na Baía dos Porcos, quando sua própria atitude vis-à-vis aos preparativos da CIA concorrera para criar aquela situação. Na realidade, Kennedy não fez gestão diplomática para evitar a crise, que ele deflagrou como um ato de propaganda eleitoral, a fim de superá-la negociando a partir de uma posição de força. A política interna John Kenneth Galbraith, embaixador dos Estados Unidos na Índia àquela época, reconheceu foi o fator mais importante na decisão de impor o bloqueio naval a Cuba.
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Parte III:
Os Estados Unidos atravessavam então gravíssima crise política e moral, em virtude não apenas da derrota na guerra do Vietnã, contra a qual, internamente, os mais intensos e disseminados protestos começaram a ocorrer desde que, em 1970, as tropas norte-americanas invadiram o Camboja. Também abalou os Estados Unidos o escândalo, que provocara a renúncia de Nixon (1974) em meio a um processo de impeachment em curso no Congresso, ao descobrir-se que alguns agentes da CIA invadiram o Hotel Watergate, sede do Partido Democrata em Washington, na campanha eleitoral de 1972 e que a Casa Branca utilizava as agências de segurança nacional e inteligência (FBI e CIA) na política interna. Esse episódio levou o Senado norte-americano a instaurar uma comissão de inquérito, sob a presidência do senador Frank Church (Idaho), para investigar as operações de inteligência do governo. Seus trabalhos revelaram não apenas que, desde 1970, a CIA, por ordem de Nixon, começara a organizar o golpe de Estado contra o governo do presidente Salvador Allende, considerado inaceitável para os Estados Unidos,6 como participara, ao tempo de Kennedy, dos assassinatos de Leónidas Trujillo (República Dominicana), de Patrice Lumumba (Congo), do general Ngo Dinh Diem e de seu irmão (Vietnã do Sul), bem como de pelo menos oito complôs para matar Fidel Castro, entre 1960 e 1965.7
6. A preparação do golpe militar começou em 1970, por instrução direta de Nixon a Richard Helms, diretor da CIA, visando a impedir a posse de Allende na Presidência do Chile, para a qual fora então eleito. O general René Schneider, comandante-em-chefe das Forças Armadas, opôs-se à conspiração e foi assassinado pela CIA. U.S. Senate, Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, pp. 225-254.
7. Em 1975, Castro entregou ao Senador George McGovern uma lista com 24 tentativas de assassiná-lo nas quais a CIA esteve envolvida. A CIA negou envolvimento em quinze. Ibid., p. 71n.
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Parte IV:
Se era problemático para um presidente dos Estados Unidos levantar o embargo e defrontar-se com a comunidade cubana de Miami, conforme Carter ponderou, também Fidel Castro não tinha condições de abrir o regime e convocar eleições livres, em pleno state of belligerence que os Estados Unidos, desde 1961, mantinham contra Cuba, configurado pelo embargo e pela guerra secreta sabotagens, tentativas de assassinato e outras ações terroristas, empreendidas durante muitos anos pela CIA , no âmbito da qual um colaborador e agente, Luís Posada Carriles, em 6 de outubro de 1976, fizera explodir em pleno voo, em frente à costa de Barbados, um avião da companhia Cubana de Aviación, matando 73 pessoas.12 Com efeito, Cuba, a partir de 1960, fora forçada pelos sucessivos governos dos Estados Unidos a viver em permanente estado de guerra, e ao longo de quase cinco décadas, i.e., de 1960 a 2008, ocorreram 713 atos de terrorismo na ilha, 56 dos quais a partir de 1990, organizados e financiados a partir do território americano, com um saldo de 3.478 mortos e 2.099 incapacitados.13 Em 1992, fora organizada, dentro da Fundación Nacional Cubano-Americana (FNCA), uma estrutura clandestina, denominada Comisión de Seguridad, constituída por um grupo paramilitar de caráter terrorista. Depois se formou a Coordinación de las Organizaciones Revolucionarias Unidas (CORU) e, entre 1994 e 1996, ocorreu uma escalada de atentados. Alguns grupos, provenientes de Miami, infiltraram-se em Palo Quemado, Caibarién e outras regiões, com a missão de realizar sabotagens, e o grupo Alfa 66 promoveu três ataques contra o Hotel Guitart, em Cayo Coco, enquanto o Partido Unidade Nacional Democrática (PUND) atacava o Hotel Meliá Las Americas, em Varadero. Outrossim, outros grupos terroristas Comandos F-4 denominados Patria y Libertad, Gobierno Provisorio en el Exilio infiltraram-se nas províncias de Matanzas e Villa Clara para executar atentados e chegar às montanhas de Ecambray, quando mataram Arcelio Rodríguez Garcia, um trabalhador de 34 anos, pai de dois filhos. O objetivo era criar um clima de terror, que prejudicasse o fluxo de turismo para Cuba.
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12. Luís Posada Carriles é um dos mais famosos terroristas cubano-americanos. Como agente e colaborador da CIA, treinou na Guatemala os exilados cubanos que participaram da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Intentou várias vezes matar Fidel Castro e, em 6 de outubro de 1976, fez explodir em pleno voo, em frente à costa de Barbados, um avião da companhia Cubana de Aviación, quando morreram 73 pessoas, além de outros inumeráveis atentados a bomba. Consta que estava na Plaza Dealey de Dallas, em Houston, quando ocorreu o atentado contra o presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963. Em entrevistas ao New York Times, confessou que fora treinado pela CIA e que a Fundación Cubano Americana, dirigida por Jorge Mas Canosa (1939-1997), financiava suas operações terroristas. Luis Posada Carriles e Orlando Bosch foram fundadores da CORU, o grupo terrorista mais ativo, sediado em Miami. Esteve preso no Texas, acusado de entrada ilegal nos Estados Unidos, mas foi solto logo depois.
13. Discurso de Raúl Castro en el Comité Central del Partido Comunista en 3/5/08. Sierra Maestra Diario digital. La Habana, 30 abr (Prensa -Latina).
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