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    29 de abril

    Domenico A. Coiro, Mar Becker, Priscila Merizzio, Silvana Guimarães (org.)

    Patuá
    2015
    198 páginas
    6h 36m
    ISBN-13: 9788582972151
    Português Brasileiro
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    vivian aurora de moraes bragagnolo picture
    vivian aurora de moraes bragagnolo21/11/2015Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O verso da violência e da resistência

    "29 de abril" (Patuá, 2015) é uma antologia de poesia e relatos primorosa sobre um fato histórico, político e social. Em "batalha de bomba e giz", de Célia Musilli, explica-se: "No dia 29 de abril de 2015, ecos de um tempo distante chegaram como ondas e se espalharam pelo país como se ouvíssemos um nostálgico programa de rádio do período da ditadura militar. Um confronto entre a PM, professores, funcionários e estudantes do Paraná começou no início daquela tarde, na Praça Nossa Senhora da Salete, em Curitiba. De um lado, policiais fortemente armados com escudos, paracetes, bombas de gás lacrimogêneo, armas com balas de borracha e spray de pimenta, condimento sádico da crise que se estabeleceu entre o governador do Estado e o funcionalismo, a partir da decisão governamental de tomar um fundo previdenciário à revelia para sanar um rombo nos cofres públicos. Do outro lado, a maioria dos manifestantes era formada por professores vindos de todo o estado com sua capacidade de organização e rebelião justas, para enfrentar a decisão do governo. [...]" O que se seguiu foi um massacre que virou poesia e gerou o livro "29 de abril: o verso da violência". Apesar de um total de 95 poemas de 93 autores diferentes sobre o mesmo tema, e um tema tão pesado, a leitura agrada pela multiplicidade de olhares e formas de versejar, que vão desde os chavões do giz e dos livros, presentes em boa parte dos poemas, até uma enumeração detalhada de armas utilizadas pelos policiais (Claudio Daniel), que, de maneira simples, é a metáfora da força contra a coragem crua. Há ainda poemas de cunho satírico e um que sequer menciona os objetos ou lances da luta, numa primorosa ousadia literária ("apostas altas", Mirian Adelman). De Marcelo Sandmann, temos um lindo poema revolucionário-erótico que explica por que ele é um dos melhores poetas em atividade. "Canto de guerra" [adaptado], de ikaRo maxX, é um longo e instigante poema concreto. O livro cauda impacto não somente pelas palavras: fotos do dia do conflito, com PMs fortemente armados, estão espalhados entre os poemas. É desafiador escrever uma resenha sobre um livro desse calibre. É claro que alguns poemas são mais "panfletários" que outros, mais líricos, que se utilizam de metáforas mais raras. Mas, para o leitor desta resenha, foram selecionados dois poemas que sintetizam as diferenças entre os olhares e sentires dos autores da antologia. O primeiro é "aponto as sobras de amor pra extinguir o medo das cobras", de Camillo José: "foi como respirar com um drone atravessado na glote, te ver doer assim me assou as asas. ô baby, eu queria tanto desamassar esse pão, confiscar o novelo desses minotauros, roubar o santo sudário pra enxugar tua testa, rebocar o sol dessa tarde à base de cal, lavar teu sangue com a minha ausência, ensinar a eles a leveza da tua camomila, apagar esses hematomas cor- de-ninguém, resolver essa richa numa partida de jokempô, we know things are bad - worse then bad. they're crazy. é o nosso judô juvenil contra aquela legião de bestas. a manada estou- rando e a gente no front com um girassol na boca. esses pacifóbicos, esses barulhômanos. há quem ceda ao sal dessa sede e duvide do nosso taco, netos de caim caindo de paraquedas na nossa marcha; mas eles não passarão, Passarão, essa guerra não é dos que usam garra postiça, é na língua deles que o chiclete vai azedar. ontem não teve hoje que consolasse, mas baby, você lembra o refrão, amanhã a gente acerta a tônica dessa porrada toda. ó minha grande, ó minha pequena, esses brutamontes não merecem o brócolis que brota de tuas veias, guarda tua lágrima pruma outra season finale que nesta temporada não seremos o plot twist. não caberá nessa jaula o nosso rugido, não será tele- guiada essa revolução. agora dança, coala, forget our troubles and dance, descalça tua melhor alpar- gata e valsa. let's play that. insiste nesse passo, vai repassando a tática até virar viral. fala que o segredo tá no ritmo, eles têm medo de quem sabe dançar." Quando um governante erra, resta ao poeta a via de protestar e outra, a de desqualificá-lo pela sátira. Vale a pena transcrever aqui uma de William Zeytounlian, "contra richa", marcante em "29 de abril": "Gregório de Matos cantava os dias da Bahia também hoje, um governador é um governador e busca, às avessas, encômios. Décimas Que se poupem sla, cal e alho na praga ao que nos governa por mais que muito se queira que lhe apodreça o caralho. Do cal é uso marcar talho do campo para os meninos; sal e bom alho ainda menos bom seria nos ver faltar: na cozinha é salutar consumo, se comedido. Em "B" seu nome começa; o resto acaba em "icha": não ache que o cha "bicha": a piada não vale a brecha. Um igual amar não é pecha, O amar em tudo consente: Do cu, da cona ou cacete prazer vário dá para extrair. Antes também fosse assim de bomba, gás, cassetete. Portanto fica provado que tudo nele é sem graça; seu ser não vale uma praga, quem é não vale um centavo. Confesso que de bom grado desceria nele a porrada, como se não fosse nada com um sorriso no rosto. Assim, feliz, como novo, voltaria enfim a dar aula." O governador do Paraná, que promoveu o massacre, é Beto Richa (PSDB).

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