O Crocodilo e Outras Histórias

    Dostoiévski

    Scipione
    2003
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-10: 8526246054
    Português Brasileiro

    Adaptação em português do clássico da literatura russa, com linguagem acessível para o público jovem. Esse volume reúne três contos. O crocodilo - Ivan Matvêitch, um funcionário público russo, é engolido inteiro por um crocodilo exposto à visitação pública. Sobrevive e desiste de reverter a situação, antevendo vantagens como aumento de salário e projeção intelectual. Pilhéria sem graça - O general Ivan Ilítch Pralinski põe em prática o ideário liberal, que começa a ganhar terreno na Rússia czarista, e apresenta-se, sem ter sido convidado, na festa de casamento de um mísero funcionário de sua repartição, causando constrangimento. Um pequeno herói - Um menino de onze anos passa suas férias na casa de campo de um parente rico, onde desperta para os encantos das mulheres. Considerado ingênuo, acaba partilhando involuntariamente dos segredos de uma das jovens senhoras.

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    Bruno Rafael28/11/2016Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    As histórias de um russo provocador, observador, criativo... e romântico!

    O livro reúne três contos. Os dois primeiros discorrem sobre a situação política da Rússia na segunda metade do século XIX, enquanto o terceiro conto, totalmente diferente dos dois anteriores, relata a metamorfose que acontece em um garoto que se encontra na transição da infância para a adolescência. Em “O crocodilo”, Semión Semiónitch, o narrador da história e amigo de Ivan Matvêitch, descreve uma situação inusitada que acontece com seu amigo quando eles vão visitar um crocodilo. O seu amigo acaba sendo engolido totalmente pelo réptil. A princípio, a esposa de Ivan e Semión se assustam com a situação e tentam elaborar uma idéia para tirá-lo de dentro do animal, o que se espera de uma situação como essa. Mas depois descobrem que Ivan está vivo, sendo este que os comunica. Os donos do Karlchen (nome carinhoso dado ao bichano pelos donos) recusam-se a deixar abrir o animal para que Ivan saia de dentro dele. E no meio dessa confusão, um dos motivos para se manter a situação inusitada é o “princípio econômico”, ou seja, a possibilidade de se arrecadar mais dinheiro com a exposição do crocodilo, que agora irá atrair mais público, já que existe um homem vivendo dentro do crocodilo. Argumento bizarro, não é? Não para os personagens da história, inclusive para o alimento humano, Ivan Matvêitch. Dostoiévski utiliza-se de metáforas em todo o conto para criticar o expansionismo capitalista na Europa e que começa a crescer dentro da Rússia, e dessa forma, cria situações inusitadas cheias de ironias e com muito sarcasmo, que faz com que o leitor ria em muitos trechos dessa comédia. Um riso que é criado mais com características morais dos personagens do que em situações físicas. É uma pena que o autor não tenha terminado a história. Surpreendi-me quando virei uma página para ler o desfecho da história e encontrei o título do próximo conto. A sensação que fica é: “Já acabou?”. Conto bem trabalhado dentro do que o autor se propôs a fazer: uma grande crítica ao sistema da época. No segundo conto, “Pilhéria sem graça”, o general Ivan Ilítch Pralinski “invade” a festa de casamento de um subordinado com o objetivo de levar para as pessoas ali presentes o seu ideal humanista, mas acaba causando constrangimento frente à família do noivo e dos convidados, pois desconsidera toda a sua arrogância e o infortúnio de sua presença naquela festa, onde se encontrava como uma pessoa de alta classe envolta por pessoas humildes financeiramente. O terceiro conto é bem diferente dos anteriores. “Um pequeno herói” relata a passagem, da infância para a adolescência, de um menino. Em uma grande festa, o rapaz, que é o narrador da história, passa os dias arrodeado de belas mulheres, e uma delas, uma loura sedutora, passa a provocá-lo insistentemente. Mas ele se encanta mesmo é pela amiga da loura pervertida, Madame Natalie. Com o decorrer da história, o rapaz passa a conhecer um segredo da sua amada. No final do conto, ele a ajuda a manter o segredo em particular, tornando-se um herói para a sua amada e ganhando um prêmio de que não se esquecerá jamais. É interessante notar nesse conto a pureza do jovem, que chega a ser ingênuo em muitos momentos, em contradição à indecência marcada pela personagem da loura atrevida. Dois lados opostos que entram em conflito e que se misturam em alguns trechos do conto ocasionando muita revolução interna no jovem. A adolescência do pequeno herói foi resultado não apenas do fator biológico que nos é inevitável na vida, mas também por feitos e atitudes morais/psicológicas que elevou o status do herói, de moleque para homem, como o ato de aceitar um desafio da loura e montar com coragem um cavalo bravo que ninguém ousara montar antes. No prefácio do livro diz-se que Dostoiévski escreveu este último conto enquanto ele estava na prisão, para assim, poder escapar do horror que o cercava. Desta forma, ele pôde se transportar para a pureza de sentimentos de um adolescente ao despertar para o amor. De fato, esse conto tem uma beleza singular. O autor nos descreve o amor primeiro, aquele que nos inunda e preenche toda a alma que até então desconhecia esse sentimento. Aquele amor que andou de mãos dadas com a inocência e que foi perdido para sempre, pois não se pode encontrá-lo mais no caminho da vida, porque as fases da vida passam e a única lembrança que ele deixa é a memória dos momentos e das emoções daquela época.

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