Consolatio ad Marciam Consolatio ad Helviam Consolatio ad Polybium
Consolatio ad Marciam Consolatio ad Helviam Consolatio ad Polybium
As consolações a Hélvia e a Márcia são excelentes. Já a Consolação a Políbio tem apenas poucos bons momentos perdidos em meio às famosas bajulações indiretas de Sêneca ao imperador, famosamente criticadas por Diderot. Abaixo, trasncrevo os poucos bons momentos que encontrei nesta última: 1.1-4 Lugar-comum acerca do fato de que mesmo as coisas grandes (como cidades), mas até mesmo o mundo como o todo será um dia destruído. se os comparares com a nossa vida, eles [os monumentos] são resistentes, se os submeteres à condição da natureza, que destrói todas as coisas e as reconduz ao mesmo estado de onde as tirou, são efêmeros. Na verdade, que obra imortal poderiam fazer mãos mortais? As famosas sete maravilhas do mundo e, se acaso o orgulho dos séculos seguintes ergueu outras muito mais admiráveis que estas, algum dia serão vistas arrasadas. Esta é a lei: nada é eterno, poucas coisas são duradouras; cada coisa é frágil a seu modo, o fim das coisas é diferente, mas tudo o que começa tem fim. 2. Alguns ameaçam o mundo com destruição, e este universo, que abarca todas as coisas divinas e humanas, se julgas que é lícito crer, um dia será destruído e mergulhado no antigo caos e trevas. Que venha agora alguém e deplore as vidas de cada um; que se lamente sobre as cinzas de Cartago, de Numância e de Corinto se alguma outra coisa caiu de maior altura, quando até este universo, que não tem para onde cair, deve perecer. Que venha alguém e lamente que o destino, que um dia ousará tamanho crime, não o poupou! 3. Quem é capaz de tão desenfreada e soberba arrogância que, diante desta lei da natureza que reduz todas as coisas ao mesmo fim, deseje que só ele e os seus sejam excluídos e também afaste alguma família de uma destruição que ameaça o próprio mundo? 4. É, pois, um enorme consolo alguém pensar que isso que o atingiu, todos antes dele suportaram e todos suportarão e, por isso, me parece, ter feito a natureza comum o que fez de mais cruel, para que a igualdade mitigasse a crueldade do destino. 3.5. Ó isolente Sorte, usaste essa ocasião para mostrar que ninguém pode ser protegido contra ti, nem mesmo por César. 4.1. Podemos acusar o destino longamente, mas não podemos mudá-lo; ele se mantém duro e inflexível. Ninguém o move com a injúria, nem com o pranto, nem com a razão; nada poupa jamais nem perdoa a ninguém. Poupemo-nos, assim, das lágrimas que de nada servem. 4.2-4.3. Coragem, observa todos os mortais, por toda a parte há ampla e contínua razão de chorar; uma difícil pobreza chama uns para o trabalho cotidiano, uma ambição inquieta solicita a outros; um teme as riquezas que desejara e sofre com seu próprio desejo; a solidão atormenta um, a estima, a outro, e a turba que sempre assedia o seu vestíbulo, a outro; este se queixa de ter filhos, aquele de tê-los perdido. Faltar-nos-ão lágrimas antes que razões de chorar. 3. Não vês que vida a natureza nos prometeu, querendo que o primeiro ato do homem ao nascer fosse o pranto? Deste modo chegamos ao mundo e está de acordo com isto a ordem de todos os anos vindouros. 5.1-5.2. Isto, também muito te ajudará, se pensares que a tua dor não é menos grata a ninguém do que àquele a quem ela parece ser tributada. Ele não quer que tu sofras, ou ignora que tu sofres. E assim não há nenhum sentido nesse ato, supérfluo, para quem é oferecido, se nada sente, desagradável, se o sente. 2. Posso afirmar audaciosamente que não há ninguém em todo o globo terrestre que se deleite com tuas lágrimas. 5.3. Ou teu irmão deseja que te tortures com lágrimas infindáveis ele é indigno deste teu afeto ou não deseja isso, abandona a dor improdutiva para ambos: um irmão cruel não deve ser amado desse modo, um irmão amoroso não exigiria isso. 9.1-9.5. Também ser-te-á de grande conforto se, frequentemente te fizeres esta pergunta: Porventura sofro por mim ou por aquele que morreu? Se por mim, é inútil a ostentação da minha afeição, e a minha dor, que é desculpada só enquanto é honesta, começa a afastar-se do afeto familiar quando reflete a utilidade pessoal; nada, porém, convém menos a um homem virtuoso do que tirar proveito da morte do irmão. 2. Se sofro por ele, é necessário que uma ou outra destas duas hipóteses seja considerada: pois, se nenhum sentido resta ao morto, meu irmão livrou-se de todos os incômodos da vida e retornou para aquele lugar no qual estivera antes de nascer e, livre de todo mal, nada teme, nada deseja, nada sofre: que loucura é essa jamais deixar de sofrer por aquele que nunca há de sofrer? 3. Se algum sentido existe nos mortos, neste momento o espírito de meu irmão, como livre de uma longa prisão, finalmente senhor e árbitro de si mesmo, exulta e goza do espetáculo da natureza e do alto olha todas as coisas humanas, observa mais de perto as coisas divinas, cuja essência ele próprio buscava em vão por tanto tempo. Por que, pois, me aflijo com a saudade dele, que ou é feliz ou não existe? Chorar por quem é feliz é inveja, por quem não é nada, é demência. 4. Acaso te comove a ideia de que parece que ele se privou de grandes bens justamente quando eles o cercavam? Quando pensares que há muitas coisas que ele perdeu, reflete que são muitas as que não teme. A ira não o atormentará, a doença não o afligirá, a suspeita não o molestará, a inveja, sempre voraz e inimiga do sucesso dos outros, não o perseguirá, o medo não o perturbará, a inconstância da fortuna, que rapidamente transfere suas dádivas, não o inquietará. Se calculas bem, mais lhe foi dado do que tomado. 5. Ele não gozará de riquezas, nem dos teus nem dos seus favores; não receberá benefícios, nem os fará: julga-o infeliz porque perdeu essas coisas, ou feliz porque não as desejara? Crê-me, que é mais feliz aquele a quem a fortuna é supérflua do que aquele a quem ela está à disposição. 9.6. Se quiseres crer naqueles que observam mais profundamente a verdade, toda vida é um tormento. Lançados neste mar profundo e agitado, alternado nos seus fluxos e refluxos e que ora nos levanta com repentinos progressos, ora nos derruba com maiores danos e, freqüentemente, nos abala, nunca nos deteremos num lugar estável; andamos perplexos e flutuando, somos lançados um contra o outro e, algumas vezes, naufragamos. Sempre tememos! Nenhum outro porto há, a não ser a morte, para aqueles que navegam neste tão agitado mar e exposto a todas as tempestades. 9.8-9.9. Neste momento ele goza de um céu aberto e sem limite: de uma região baixa e enfraquecida, seja quem for, é lançado para aquele lugar, que recebe em seu seio feliz as almas desligadas das prisões e, agora, lá, ele vagueia livremente e contempla com enorme prazer todos os bens da natureza. Estás enganado: teu irmão não perdeu a luz, mas alcançou outra mais segura. 9. O caminho para lá é comum a todos nós. Por que choramos o destino? Ele não nos deixou, mas nos precedeu. 11.1. Quão justo foi aquele pai que, anunciada a morte do filho, pronunciou palavras dignas de um grande homem: Quando o gerei, sabia que havia de morrer. 11.3. O destino surpreenderá alguns num momento, outros, em outro; não desprezará ninguém: que o espírito se mantenha preparado e jamais tema aquilo que é necessário, espere sempre aquilo que é incerto. 18.1. Não deves, pois, mudar nada em teus costumes, desde que realmente resolveste amar aqueles afazeres que não só, convenientemente, exaltam a prosperidade mas, com facilidade, diminuem as desgraças, e eles são, ao mesmo tempo, os maiores ornamentos e consolos para o homem. Agora, portanto, dedica-te com mais ardor às tuas ocupações, cerca-te delas como proteção do espírito, a fim de que a dor não encontre, por nenhuma parte, entrada em ti. 18 4. Recusa, pois, usar o teu talento contra ti mesmo, recusa fortalecer a tua dor. A tua eloquência pode fazer parecer grande as pequenas coisas e, por outro lado, atenuar e diminuir as grandes; mas que ela guarde essas forças para outra ocasião e agora se empenhe toda para consolar-te. Considera, todavia, que esta também já não seja supérflua: na verdade, a natureza nos exige alguma dor que é exagerada pela vaidade. 18.5-18.6. Jamais, porém, exigirei de ti que te abstenhas de toda aflição. E sei que se encontram alguns homens de sabedoria, mais severa que corajosa, que afirmam, não ter o sábio que sofrer: parece-me que estes jamais tenham incorrido em semelhante desventura, aliás, a Sorte ter-lhes-ia arrebatado essa arrogante sabedoria e tê-los-ia levado, ainda que forçados, a confessar a verdade. 6. A razão terá levado suficiente vantagem se suprimir da dor somente o que for abundante e supérfluo. [...] Que as tuas lágrimas corram, mas que as mesmas cessem; que brotem gemidos do fundo do teu coração, mas que os mesmos tenham fim.

Lúcio Aneu Sêneca (em latim: Lucius Annaeus Seneca; Corduba, 4 a.C. — Roma, 65 d.C.) foi um dos mais célebres escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Sêneca, o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.