Esta Helena de Uruguaiana passa a palavra a Helena Maria, uma mulher bonita e charmosa que, assim como aquela Helena de Troia, vem a ser cobiçada e disputada pelos homens. Esta Helena moderna, no entanto, cruza com Sherazade e narra suas peripécias com humor e franqueza, uma franqueza um tanto desconcertante ao revelar as artimanhas de uma menina de treze anos para despertar o interesse e o desejo primo adulto. Onde se esperaria a clássica história de sedução da moça ingênua, surge o procedimento pensado e ousado da ardilosa Helena uruguaianense para conquistar seu amado. No presente da narração, temos a ex-ninfeta, agora madura, que relata sua experiência de adolescente sensual e que repassa as doses de prazer e sofrimento necessários para amadurecer, o preço pago pela sabedoria. Com distanciamento a que se combinam ironia e alguma acidez, Maria da Graça Rodrigues desvela em ótimo ritmo narrativo o esforço de autoconhecimento que vai junto com os registros do cotidiano. Outro dos vários encantos do relato é o trajeto da personagem entre Uruguaiana, Punta del Este e Paris, no que resulta um circuito interiorano e cosmopolita a emoldurar as palavras de Helena Maria. E as palavras aqui fluem em sintaxe sem tropeço, num estilo em que o coloquial comparece sem desandar o vulgar, rebaixamento que não combinaria com a personalidade e o perfil de narradora.