Odor Vazio conta a história de Carlos Crasso, homem que se considera acima das leis e bons modos da sociedade. Além dessa personagem, outros, como o Detetive Hermes, a própria Maria Clara, a empregada doméstica, o segurança e os moradores de rua dão tom ao conjunto e são peças-chaves para o destino de Crasso.
Diferentemente do conto, a obra apresenta os tons preto e branco, mas traz em sua capa contrariedades: (1) o tom dourado, cor que pode representar a riqueza, o dinheiro; (2) a imagem do morador de rua, contraposta à cor da capa; (3) o próprio título, que brinca com a linguagem entre o substantivo relacionado à sensação olfativa (odor) e o adjetivo relacionado à dimensão espacial (vazio).
Vargas discute a questão da história parcial vs. a total – O Caderno Rosa é um excerto de Odor Vazio e uma não exclui a outra. Como já dito anteriormente, a primeira possui duas possibilidades de leitura (HQ erótica ou extensão de outro tema maior) enquanto a segunda possui uma história canônica fechada, mas que dialoga, paralelamente, com a história suprimida da personagem Maria Clara.
O autor segue quebrando outras perspectivas e expande seus traços para demais âmbitos cruéis da sociedade: programas sensacionalistas, violência doméstica, a mulher como simples objeto sexual e financeiro.
Lembremos as questões levantadas em O Caderno Rosa, no qual Maria Clara fica no mesmo nível de visão dos moradores de rua e a posição dela na história. Em Odor Vazio, esses pontos são retomados e explicados, descortinando a parte num todo.
Maria Clara vive um casamento falido, com um marido abusivo, fútil e que, tendo um escritório situado em andar superior, olha o mundo e os outros de cima para baixo – metafórica e denotativamente falando. Sua relação com os afortunados se faz necessária a partir dessa situação, estabelecendo um vínculo de lealdade entre os pares que, diante da sociedade, são vulneráveis.
Qualquer polêmica que poderia surgir com a leitura desatenta d‘O Caderno Rosa é repelida em Odor Vazio, pois as circunstâncias das personagens em situação de risco são reflexos da violência, por sua vez, produzida por categorias sociais que se acham superiores e impunes.
As leituras de H(Y)MEN, no texto da semana passada sobre O Caderno Rosa, ficam mais explícitas nesta obra; rompem-se as caricaturas da impunidade, principalmente do preconceituoso Dr. Carlos Crasso.
Com repertório diversificado, além da significação das cores, Ruis incorpora ícones da mitologia grega. No escritório da personagem central, Carlos Crasso, duas estatuetas se apresentam: Teseu e Perseu. Os dois objetos personificam outros atores de Odor Vazio. Teseu é conhecido por ser orador, defensor dos fracos e da justiça e por ter matado o Minotauro a socos. Essas três características do mito se ligam ao personagem Dr. Crasso por suas semelhanças e diferenças: (1) Carlos é advogado, dialoga com a oratória, arte que trabalha com a persuasão; (2) interrogado sobre um assassinato, o advogado vai se parecendo culpado quando, procurando encobrir o crime, perde-se entre o silêncio e a fala, agredindo o juramento de justiça; e (3) na obra, com a ajuda de uma pedra, o advogado agride o vizinho a socos, fazendo o mesmo com a própria esposa, Maria Clara, além de se achar no direito de pisar em outras camadas sociais vistas como inferiores por ele.
Já a estatueta de Perseu, devido a sua mitológica capa da invisibilidade, traduz esta questão: mendigos e mulheres que sofrem violência doméstica, ambos brutalizados por Crasso, são tratados como invisíveis pela sociedade.
O lado obscuro do cerne social é tematizado de forma sincera nas duas obras de Ruis; não há arrependidos nem absolvidos. Alguns têm culpa por alimentar o sensacionalismo, assistindo a programas policiais; outros, por procurar a própria absolvição, ocultando suas faltas. Mas convém perguntar: Carlos Crasso matou o vizinho ou foi vítima de especulações midiáticas?