Um certo mal-estar

    Victor Mascarenhas

    Solisluna
    2015
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788589059732
    Português Brasileiro

    Um certo mal-estar reúne 13 contos com narrativas incisivas, cinematográficas e carregadas de ironia, trazendo personagens, cenários e conflitos da vida cotidiana e da desiludida Geração X. Neste livro, o autor segue fazendo o que o escritor e compositor Fausto Fawcett definiu como "um passeio dantesco por vidinhas que andam em círculos de imobilidade mental, social, sentimental. Pessoas cujos corações transformaram-se em bombas-relógio prontas a explodir por qualquer motivo."

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    Andreia Santana20/12/2015Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Requiém para os sonhos partidos da geração x

    O antiácido dissolvendo na capa de Um certo mal-estar, terceiro livro de contos do baiano Victor Mascarenhas, autor também do romance Xing Ling - Made in China, já dá ao leitor a ideia de que nem com um Engov, ou com aquela cerveja da propaganda, os contos reunidos no livro descerão redondos. O volume traz histórias que dão conta dos desencantos da geração x. Mas, como rir da própria miséria se faz necessário nesse palco improvisado e meio mambembe da vida, as desditas dos personagens, ao mesmo tempo em que provocam azia no leitor, demonstram o quão patética pode ser a existência. São 13 contos para ler de um só fôlego, com narrativa ágil, bem construída e vertiginosa. O sentimento do leitor fica dividido entre a empatia de identificar referências culturais próprias dessa turma que está próxima ou passou um pouco dos 40, o que traz certa nostalgia; e o incômodo gerado pela certeza de que, de fato, os punks de outrora, libertários, iconoclastas e incendiários, envelheceram nem sempre muito bem. Logo na abertura, a primeira história, Invertebrado, flerta com Kafka e transforma um ex-jovem cheio de sonhos, em um simples funcionário de escritório de contabilidade, desiludido com os rumos da própria vida e naquele estágio da existência de tamanha resignação que o leitor até suspira um "bem-feito" com o desfecho que aguarda o personagem, que "não deu para nada" na vida, nem para um Gregor Samsa decente! Na sequência, o comovente e tragicômico Fim de jogo conta a história de um jogador de futebol em fim de carreira às voltas com um dilema existencial e ético; enquanto o divertido Bomba de efeito moral, embora mais politizado, tira um sarro com os black blocks. Mais interessante é o cenário de ares coloniais da Praça Municipal emoldurando o dilema do protagonista, que se mete em um grupo supostamente engajado apenas porque quer transar com uma das "guerrilheiras". O noir Blue Moon é inspirado naquela boemia meio marginal e esfumaçada dos filmes policiais sobre tramas envolvendo alianças improváveis de mafiosos e policiais corruptos, com um desfecho a la Tim Burton e seu Sweeney Todd. Já Ela, mantém esse mesmo clima noir para reeditar o mito da femme fatale. Mas dessa vez transpondo a narrativa para um cenário que lembra o Porto da Barra das madrugadas de insônia. Interessante notar que apesar da atmosfera vamp, a história não perde aquele toque meio ingênuo que lembra bastante a música Menina Veneno, de Ritchie, ou Garotos II, de Leoni, trilhas sonoras que certamente embalaram a puberdade e a juventude do autor e dos leitores nessa faixa etária, já que tocavam insistentemente nas rádios nos idos das décadas de 80 e 90. Outra história, Purgatório, é impiedosa na crítica ao jornalismo que cobre celebridades e magnatas; e aos jornalistas que, tal qual aves carniceiras, sobrevoam em torno dos hospitais à espera do grande furo representado pela morte de um magnata por overdose. Nos intervalos entre essa histórias mais complexas, há micro contos que brincam com temas como a burocracia e a solidão, seja do tiozinho que enfia camisinhas no bolso antes de cair na folia momesca, a tiazinha que se excita com o especial de fim de ano do Roberto Carlos, ou o cara que não gosta de Réveillon e se enfia numa sala automatizada de cinema para ver um filme qualquer, enquanto do lado de fora, fogos pipocam e taças de champanhe ajudam a fabricar a alegria esfuziante que a ocasião pede. Os dois últimos contos de Um certo-mal estar, na verdade um grande mosaico da existência humana, poderiam facilmente virar roteiros de cinema. Fuga, com ares de Faroeste Caboclo misturado ao Auto da Compadecida, narra a mirabolante escapada de um homem e uma mulher da sanha de traficantes vingativos, enquanto ela está em trabalho de parto! É talvez, apesar da violência implícita e muitas vezes explícita, a mais terna das histórias do livro, se não a única com leves traços de ternura. Porque mesmo narrando uma situação limite, traz um fiapinho de esperança representado pelo bebezinho que nasce em um ferro-velho. Já o conto que encerra o espetáculo ridículo que o ser e o estar no mundo muitas vezes representa, não à toa batizado de Ensaio sobre o tempo perdido, traz uma espécie de redenção para um ex-roqueiro que, num impulso, após um papo filosófico (meio Freud, meio Bukowski) com um amigo em depressão, resolve reunir a galera da sua ex-banda de garagem da juventude. Um desfecho que provoca no leitor um risinho de canto de boca ao constatar que só a ironia salva a essência da geração x. No fim das contas, os punks de outrora podem até não ter envelhecido tão bem, mas ainda sabem dar o dedo médio para toda essa m* que está aí...

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