O escritor norte-americano Henry James (1843-1916), é um caso peculiar na galeria dos grandes escritores, não só pela inegável qualidade de suas obras, mas também, pelos textos críticos e teóricos que escreveu, onde esmiúça a consciência do escritor/artista como artífice preocupado com os efeitos e a estrutura da obra.
Deixou-nos dessa forma, a concepção que tinha da arte da ficção nos seus aspectos formais: o ponto de vista, a organização do enredo, o tom, o estilo, a caracterização das personagens etc. Segundo James, uma das mais felizes realizações de um texto ficcional, seria superar a onisciência do autor de modo não só a obter a cumplicidade do leitor, bem como melhor apreender a circunstância da vida. “Esta desordenada danação”, conforme ele a definiu. A verdadeira obsessão de Henry James nesse sentido, terminou por nos legar estruturas ficcionais em que sobressai o que hoje chamamos de consciência dramatizada ou drama da percepção interna. Verdadeiramente um achado à época em que ele pensou e escreveu.
A Editora Penalux recentemente deu a público a oportunidade de travar conhecimento com uma obra desse autor (tão pouco conhecido no Brasil), através da publicação da novela Os Papéis de Aspern. Trata-se da história de um editor americano aficionado pela obra de um grande poeta já falecido (Jeffrey Aspern), que descobre a antiga amante do poeta a viver em Veneza. Aí começa a trama. O editor resolve ir à Itália para saber da existência de originais não publicados, correspondências etc. e, em existindo, apossar-se deles seja como for.
“Lamento por isso, porém, não há baixeza que eu não cometa em consideração a Jeffrey Aspern”. P. 31
Ocorre, entretanto, que ele terá de enfrentar a avarenta ex-amante do poeta (que o tempo transformara numa velha amarga e calculista), que por sua vez, vive em companhia de uma sobrinha, miss Tina, mulher jovem provavelmente disponível para o amor, e possível aliada do editor. Eis o núcleo central da narrativa girando em torno desses três personagens. Na obra não há o relato próprio e impessoal do autor – e isto é importante frisar, pois marca a criatividade de James –, mas sim o relato do autor sobre a impressão de alguém, já que tudo flui através da mente dramatizada de uma personagem, no caso, o editor que luta consigo mesmo para interpretar os acontecimentos. É o olho que olha, percebe e seleciona. O detentor do foco narrativo.
“... e as figuras venezianas, movendo-se de cá para lá contra o cenário desgastado de suas pequenas casas de comédia, nos parecem membros de uma companhia teatral sem fim”. P. 171
Com uma técnica e sutileza necessárias à instância narrativa de modo a produzir a cumplicidade do leitor, o autor vai alargando o conhecimento da trama por explanações e amplificações bem calculadas, muitas vezes ambientadas em memoráveis diálogos que acabam por fixar nosso interesse de forma irreversível.
Temos aí a espinha dorsal da novela. A visão indireta e oblíqua porque visão de alguém. Ou seja, a maneira como esse alguém sentiu o que aconteceu. Não é precisamente assim a nossa realidade? Como cada um a percebe no seu íntimo onde os subterfúgios não são possíveis?
“... apenas me vem à memória que houve momentos em que acalmei minha consciência e outros em que a fustiguei até doer”. P. 167
O drama da obra está no próprio drama de uma consciência onde o autor habilmente sonda as concepções de existência, sobretudo as morais em que essas três personagens se embatem até o desfecho notável, exemplar. Melhor dizendo, magistral.
“... e meu apuro era o pagamento justo para a mais fatídica das loucuras humanas, o fato de nunca sabermos quando parar”. P. 168
P.S. A esmerada edição de Os Papéis de Aspern feita pela Penalux, conta com a primorosa tradução de Chico Lopes e está acessível no site da Editora.