Escrito na fase final da vida de seu autor, "A Cidade e as Serras" é uma alegoria irônica e muito atual sobre o culto ao progresso e das novidades da ciência e da tecnologia. Nesta pequena obra-prima, que constitui um dos momentos mais altos do humor queirosiano, encontram-se sintetizadas, de modo feliz, as virtudes técnicas e temáticas que fazem de Eça um dos escritores mais representativos do século XIX. O texto da presente edição de "A Cidade e as Serras" resulta de apurado cotejo com as mais autorizadas edições portuguesas, sobretudo a de Helena Cidade Moura, que partiu dos manuscritos do autor para estabelecer as partes que ele não pôde revisar. Outro diferencia deste volume é a apresentação crítica de Paulo Franchetti - Professor Titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp - que, além de apresentar a história da produção e da recepção da obra, procede a uma análise inovadora e aprofundada do texto do romance. As notas e comentários, que permite maior proveito da leitura desta obra plena de referências culturais, ficaram a cargo de Leila Guenther, graduada em Letras pela USP e autora do livro de contos "O Voo Noturno das Galinhas". As ilustrações foram realizadas pelo professor e artista plástico Hélio Vinci, que trabalha principalmente com xilogravura. [Orelhas]: "A Cidade e as Serras" é um dos livros mais divertidos de Eça de Queirós. É também o que teve fortuna crítica mais contraditória, sendo objeto de adesão e recusa apaixonadas. Para muitos dos seus primeiros leitores, a obra expressava a reconciliação do romancista com o país de que se mantiver longe e cujo atraso fustigara em obras de juventude e maturidade. A partir dessa percepção, as opiniões se extremara. Para alguns, o livro representava um ponto alto da obra de Eça, um romance bem realizado, no qual a principal característica do seu estilo - a ironia - tinha uma atualização notável. Para muitos outros, porém - e especialmente para os críticos que escreveram no período da ditadura salazarista - a novela trazia uma proposta regressiva, na medida em que parecia propor que o atraso e a ruralidade portuguesa eram dignas alternativas ao ritmo da vida moderna, nos centros mais avançados da Europa. O debate da questão ideológica ofuscou, em meados do século XX, o interesse principal desse livro magnífico que, nos últimos vinte anos, ganhou renovado interesse e atualidade, não só por conta da sátira ao culto e domínio da tecnologia e do -maquinismo, mas também porque as análises passaram a trazer para primeiro plano a construção ficcional do discursos, com especial atenção para a figura do narrador em primeira pessoa. Na sua apresentação, Paulo Franchetti, depois de narra a história da produção, edição e recepção da obra, desenvolve uma análise muito penetrante da estrutura do livro e da figura do narrador. escrito especialmente para o presente volume, o estudo crítico dá especial atenção ainda ao diálogo intertextual que a obra mantém com outras suas contemporâneas, em especial o livro de J.-K. Huysmans, "À Rebours", por muitos considerado a bíblia do decadentismo. Valoriza sobremaneira esta edição o trabalho realizado por Leila Guenther, que, além de apresentar ao leitor uma versão do texto do romance da qual se eliminaram as intervenções dos editores póstumos, ainda esclarece, em notas e comentários, inúmeras referências culturais cujo entendimento é vital para a compreensão adequada do text. Especial destaque deve ser dado, no trabalho de anotação, às preciosas indicações sobre os muitos instrumentos e inventos mencionados pelas personagens ou que, incorporados ao dia a dia de Jacinto, tornam a sua casa uma espécie de espaço de espetáculo e teste da tecnologia que, no final do século XIX, se integra decisivamente à vida cotidiana.
A Cidade e as Serras (Clássicos Ateliê) -
Eça de Queiroz
Ateliê Editorial
2011
336 páginas
11h 12m
ISBN-13: 9788574803807
Português
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