As desordens da biblioteca -

    Muriel Pic

    Relicário
    2015
    88 páginas
    2h 56m
    ISBN-13: 9788566786163
    Português Brasileiro

    A partir de uma imagem de biblioteca contida no primeiro livro de fotografia de que se tem notícia, The pencil of nature, de William Henry Fox Talbot, publicado em 1844, Muriel Pic realiza uma série de fotomontagens e, em seguida, desenvolve uma ficção crítica fundamental para entendermos a relação que temos com imagens, textos, objetos e bibliotecas. Suas fotomontagens realizam uma investigação visual que desperta a atenção aos arredores da biblioteca e que deriva, justamente, da fotografia da biblioteca de Talbot. Para isso, ela recorreu a bibliotecas de intelectuais, críticos, escritores e curadores e, como anota o poeta Christian Prigent no prefácio do livro, essas bibliotecas aparecem como verdadeiros exoesqueletos do pensamento. A segunda parte do livro é uma leitura ensaística na qual a autora francesa explora o imaginário das bibliotecas a partir da fotografia de Talbot, ressaltando todo o seu diálogo com o fenômeno literário e passando obrigatoriamente por potenciais vizinhos de prateleira, tais como Georges Perec, Michel Foucault, Paul Éluard e Walter Benjamin. Surge então uma íntima relação entre a biblioteca e a fotografia, já anunciada de outro modo nas fotomontagens. Agora, o texto torna-se cena, e a imagem da biblioteca, uma espécie de atlas fantástico, uma aventura inesgotável do conhecimento.

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    Rafael Mussolini Silvestre05/04/2021Resenhou um livro
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    As desordens da biblioteca

    "As desordens da Biblioteca de Muriel Pic (Editora Relicário, 2015) é um livro que nos desafia a pensar as bibliotecas e a escrita por um outro viés, mas que no fim não se distancia muito daquilo que uma biblioteca representa enquanto repositório de informação, memória e conhecimento. No livro a escritora Muriel Pic parte de uma das fotografias contidas no livro "The pencil of nature" do William Henry Fox Talbot, publicado em 1844, e considerado o primeiro livro de fotografia, para fazer primeiramente uma série de fotomontagens com imagens de bibliotecas. Ao iniciar uma discussão através de uma imagem de biblioteca, Muriel demarca a importância das bibliotecas e dos livros e sua força imagética, inclusive na vida de Talbot como filólogo. É uma exploração do imaginário que sempre rondou o ambiente das bibliotecas e da leitura. Como também é um livro que fala sobre fotografia, a autora consegue fazer um contraponto muito interessante, identificando pontos onde as bibliotecas e a fotografia acabam por cumprir um papel semelhante, é um "marco do encontro da fotografia com o texto." "Pois livro é, para nós (para outros foram pedras cortadas, tábuas gravadas, feixes de papiros ou rolos de pergaminhos), o emblema daquilo que é o apanágio do humano: o poder de representar o mundo e a vida das palavras." Sendo assim, entre muitas questões, a imagem de uma biblioteca carrega consigo diversos sentidos. Além de ser uma forma de entendermos o tipo de leitor que estamos lidando, a imagem de uma biblioteca pode ser o retrato de uma época, uma forma de olhar para passado, presente e futuro. A junção biblioteca e fotografia, pode ter o poder de ampliar essa reflexão. Na fotografia vista como arte ou como uma ciência útil para a sociedade, cumpre-se ali um papel de registro, de representação de um tempo, de construção de conhecimento. Muriel Pic trabalha com uma comparação ao dizer que a biblioteca funciona como uma câmera obscura e estabelece assim mais uma aproximação entre biblioteca e fotografia. Assim como a biblioteca uma câmera escura é de natureza física e faz a representação de um objeto que é atingido pelos seus raios luminosos. A biblioteca faz algo muito semelhante, pois uma biblioteca é um retrato muito rico, uma "imagem real" do lugar que podemos alcançar através de processos de leitura, é uma espécie de materialização do pensamento. "As desordens da biblioteca" faz com que a gente tenha curiosidade também em conhecer a biografia e os feitos de William Henry Talbot. Ele foi um físico inglês, químico e inventor do processo negativo-positivo de fotografia também chamado calotipia. Estava envolvido em áreas como a matemática, espectroscopia, astronomia, arqueologia e linguística. Sua atuação como filólogo serviu também para seu interesse em realizar registros fotográficos em bibliotecas. O livro nos leva a pensar em como ler é um conceito muito amplo e a ampliação desse olhar sobre o que se lê muitas vezes está nas mãos de quem faz uso da leitura. A biblioteca é um ambiente físico, mas que cumpre um caráter de mobilidade ao percebermos a biblioteca como um ambiente vivo. A fotografia e a biblioteca, entes até então estáticos, desafiam a imobilidade, pois de onde estão são capazes de romper barreiras mediados pela leitura.

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