Na penumbra de seus laboratórios, entre papiros, alambiques e crisóis fervendo, os alquimistas forjam uma nova lenda. Representantes de um completo corpo de conhecimento que reunia a magia, ciência, esoterismo, religião e filosofia, constituíram a síntese mais intensa da cultura medieval. Serge Hutin, combinando mestria, sagacidade e experiência, faz uma viagem pela fabulosa e desconhecida existência dos alquimistas medievais para oferecer-nos uma visão esclarecedora e agradável deste estranho e fascinante mundo.
La vida cotidiana de los alquimistas en la Edad Media -
Serge Hutin
A alquimia entre a história pública e a história acadêmica
Há algum tempo comecei a acompanhar uma historiadora britânica que se dedica ao que chama de "public history", uma "história pública". O princípio é simples: fazer a história (como representação do passado e como resultado de uma pesquisa acadêmica) ser mais acessível ao grande público, aquele fora do círculo e das dinâmicas da universidade. Esse livro de Serge Hutin tem essa característica como seu fundamento. Publicado originalmente em 1977, este livro segue uma linha interpretativa hoje quase abominada pelos principais historiadores da alquimia. Hutin trata a alquimia como uma caixa de surpresas, envolta pelo mistério de seus próprios segredos. Em interpretações que ele chama "positivistas", esse tratamento da alquimia como objeto histórico é irremediavelmente ignorado e desaconselhado. Sem dúvida, hoje é possível compreender a alquimia como uma prática atravessada por uma série de simbolismos e ela, de fato, o era. No entanto, Hutin exagera esses simbolismos e os projeta numa série de símbolos produzidos fora de toda tradição alquímica. Quando Hutin se refere a obras de arte, obras arquitetônicas, etc. (geralmente deslocadas temporalmente em relação ao período da Idade Média), Hutin projeta o simbolismo alquímico em formas de representação cujo simbolismo pertence e se origina em outro campo de compreensão. Desta forma, Hutin dá à alquimia uma extensão irreal na vida medieval. Nos primeiros capítulos, Hutin diz que seria impossível realizar uma investigação histórica que propusesse estatísticas a respeito do número de praticantes na Idade Média. Logo em seguida, afirma que, sem dúvidas, os números na Era Moderna seriam maiores. Hutin, por seus exageros, não apenas se contradiz mas comete erros, como quando cita o alquimista inglês George Ripley (c.1415-c.1490) para confirmar a Igreja de Westminster como ponto de reunião de alquimistas. Ripley (cujos textos estudo em meu mestrado) estava, na realidade, falando dos "sopradores", os "falsos" alquimistas que são perseguidos pelos sargentos e jogados na prisão. A própria questão de "falsos" e "verdadeiros" alquimistas é um problema conceitual para a história da alquimia. Essa dicotomia parte da premissa de que existe uma verdadeira alquimia, estabelecida pela recorrência de temas nos documentos antigos sobreviventes. Os temas mais fortes são o do alquimista como asceta e da alquimia como processo de renovação espiritual: em parte alimentada pelas correntes ocultistas do século XIX, de outra parte pela recorrência das ideias cristãs de pureza espiritual, a ideia de uma alquimia "verdadeira" cai por terra quando se coloca em questão a ausência de testemunhos históricos daqueles acusados de serem falsos alquimistas. Sem as palavras dos "sopradores", como saber sua relação e sua compreensão do que faziam? A despeito de suas referências que asseguram diversas informações, o autor faz diversas sugestões sem corroboração de documentos ou fontes materiais (as diversas vezes em que cita os laboratórios, por exemplo, sem apresentar evidências arqueológicas que confirmem suas informações). Para todos os efeitos, o livro de Hutin é um esforço apaixonado pelo tema. Não seria o caso, hoje, de traduzi-lo. Há outros livros, mais recentes (<i>The secrets of alchemy</i>, de Lawrence M. Principe, por exemplo), com referências adequadas e abordagem histórica cuidadosa que introduzem o leitor ao tema da alquimia. Além disso, diversos estudos mais aprofundados corrigem diversas informações do texto de Hutin. Seu título, uma história da "vida cotidiana dos alquimistas na Idade Média", não se concretiza neste livro pelas razões acima expostas; ao mesmo tempo, a historiografia atual (cada vez mais especializada) também não realizou o intento de Hutin (o livro referido de Principe dá conta mais dos aspectos "científicos" e intelectuais do que propriamente cotidianos, sociais). Para o leitor que deseja penetrar nos interessantíssimos meandros da alquimia na história, o livro de Hutin é uma opção viável, mas que deve ser utilizada com cautela.
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