Para alguns escritores e especialistas em literatura americana o grande romance americano do século XX é o título lançado em 1953 por Saul Bellow (1915-2005). Para eles Augie March é comparável a ilustres personagens (ou mesmo maior do que eles) como Huckleberry Finn (Mark Twain), Gatsby (F. S. Fitzgerald) e Holden Caulfield (J. D. Salinger). O faz-tudo Augie foi muitas coisas na vida: mordomo, vendedor de sapatos, vendedor de tintas, cuidador de cachorros, ladrão de livros e até delegado sindical. E mais de uma vez sonhou em cuidar de crianças, feito assim um apanhador no campo de centeio, tanto que se licenciou professor. Tudo isso vai se passando entre os anos que antecederam a crise americana de 1929 e a segunda guerra mundial.
Grande parte deste romance por muitas vezes satírico, irônico e cômico, se desenvolve na parte empobrecida de Chicago, mas o otimista Augie também vai ao México e depois à Europa em guerra. A edição brasileira da volumosa obra (de quase setecentas páginas) traz na capa uma ilustração do episódio mexicano de suas aventuras, uma das partes mais interessantes da narrativa, juntamente com os episódios de sua infância. É quando, apaixonado por Thea Fenchel, ele a acompanha ao país vizinho onde adquirem uma águia, depois chamada de Calígula, que a moça treina para caçar imensos iguanas, lagartos e cobras venenosas, empreendimento que visava abastecer zoológicos e colecionadores de animais, fonte de renda para a aventureira Thea.
Antes dela March se relacionara com uma jovem camareira de hotel, Sophie Geratis, que vai reencontrar mais tarde durante seu envolvimento com sindicatos; depois de Thea e Sophie ele vai se apaixonar pela aspirante a atriz Stella, com quem acabará se casando. Também ficamos conhecendo outras mulheres importantes em sua vida, a rabugenta vovó Lausch, judia russa, que controlava a vida da família durante a infância de Augie, também sua mãe, que o marido abandonara, e a sra. Renling, mulher de um rico comerciante, que pretendia adotá-lo. Havia ainda Simon, seu ambicioso irmão mais velho e o pequeno George, que era retardado mental. Mas essa família não ficou muito tempo unida: a avó, fã de Anna Karenina, a mãe quase cega e o irmão deficiente acabam em diferentes instituições cuidadoras. Separados, Simon e Augie tiveram de se virar ainda mais do que antes para conseguir sobreviver.
Outros personagens memoráveis se fazem presentes na vida do rapaz, como o velho aleijado Einhorn, uma espécie de empresário e líder (trambiqueiro) da comunidade, que age como um pai substituto para ele. Durante algum tempo Augie trabalha para Simon, que subiu na vida ao se casar com Charlotte, descendente de holandeses, moça pouco formosa mas muito rica, casamento arranjado. Vai à faculdade mas não consegue se concentrar nos estudos, sua inquietude aumenta... Mais tarde, no longo episódio final, o encontramos alistado na marinha mercante, ocasião em que, depois do torpedeamento do navio em que servia, de muito esforço para não se afogar, ele se vê num bote salva-vidas com Basteshaw, um sujeito esquisitíssimo, que parece ter sonhos de um novo Crusoé, só que bastante violento. A história termina logo após esse episódio, mas não termina de fato na nossa imaginação, pois March ainda tem muito tempo pela frente, justamente para narrar todas as suas aventuras de viajante em busca da felicidade, do que ele imaginava que isso fosse.
Críticos literários destacam não apenas a capacidade narrativa de Saul Bellow, também seu jeito especial de contar as aventuras de March, como podemos verificar na ótima Apresentação do volume, escrita por Christopher Hitchens, O Grande Augie Americano. Ele afirma que este romance de Bellow ainda constitui um modelo para a moderna literatura americana. Em Augie March, quer dizer, em Saul Bellow (já que há um pouco ou um tanto do próprio escritor nessa história; como seu personagem, Bellow também admirava Trostski, entre outras coisas), teriam se inspirado outros conhecidos escritores, desde Norman Mailer, passando por Gore Vidal, Kurt Vonnegut, Philip Roth, Cormac McCarthy e chegando até Jonathan Safran Foer. O próprio Roth, um admirador de autor, escreveu certa vez que Bellow conseguiu juntar “(...) o idioma da academia com a linguagem das ruas (não de todas as ruas, mas de certas ruas).”
Bem, este resumo nem de longe consegue abarcar grande coisa do conteúdo da obra, nem era essa sua finalidade, apenas tentar convencer mais leitores a viajar pelos Estados Unidos, México e outros pedaços do mundo nas asas do aprendiz de falcoeiro, Augie March, um anti-herói por excelência. Assim ele se apresenta na frase inicial do livro: “Sou americano, nascido em Chicago – Chicago, cidade sombria -, e faço as coisas do jeito que aprendi sozinho a fazer, estilo livre. Então vou fazer o registro ao meu modo.” Um registro de muitas páginas, algumas das melhores da literatura americana do século XX e para sempre.
Lido entre 21/02 e 07/03/2019.