Oitenta poemas que eu queria ter escrito
Com um eu-lírico polimórfico, Nestos Lampros nos apresenta, em seu livro "Roupagem Leve" (Patuá, 2012), uma infinidade de poemas de altíssima qualidade. As metáforas são sutis e a forma, cambiante. O livro se divide em cinco segmentos, dentro dos quais os poemas dialogam suavemente. O poema que nomeia o livro é belíssimo: "Roupagem leve" "roupa sou sua alma nua sua cortês flâmula sua imprecisão madura sou o que minha pele é para mim e o que você é para a pele: um outro adorno" No decorrer do livro, há estrofes arrebatadoras em meio a algumas palavras tímidas. uma dessas estrofes faz parte do poema "A sombra": "Minha namorada era vazia,/ uma mão de vento e pés de nuvem./ Seu olhar de vidro era bonito./ Seu perfume sem flor era seu jeito." "O fosso" é um poema excepcional. Trata-se de uma narrativa lírica. Começa assim: "Um cego segue o outro/ e ambos caem dentro do fosso." Então, uma mulher, uma criança, um homem, vão todos caindo dentro do fosso. Narra-se que muitos profissionais vêm em socorro, mas "toda a cidade acabou caindo". O final é primoroso. Os autorretratos também são poemas importantes, mais densos, incorporando notas dos próprios outros poemas do livro, numa relação dialógica. Ao todo, o livro tem oitenta poemas e, o que impressiona nele é a qualidade de todos os oitenta poemas. Naturalmente, há sempre aqueles que "fisgam" mais o leitor, mas o percurso de todo o livro é uma experiência vibrante e delicada ao mesmo tempo.
