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    Além (Là-Bas) -

    Joris-Karl Huysmans

    Assírio e Alvim
    2006
    317 páginas
    10h 34m
    ISBN-10: 9723710765
    Português
    4.7
    3 avaliações
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    Em 1891, Além foi considerado uma grande audácia e multiplicou-se na tiragem até às dezenas de milhares. Como um desses malabaristas que mantêm vários objectos no ar, Huysmans concentrou temas de várias frentes no seu romance, todos a maior ou menor distância de uma mesma luta: a que confronta dois poderes, do Bem e do Mal, a que opõe desde a Idade Média a igreja de Roma e o seu reverso satânico. Há, como ilustração de tudo isto, a história de Gilles de Rais, monstruoso pedófilo dos tempos de Joana d'Arc, a história da promiscuidade das mais altas figuras da Igreja com os praticantes da magia, o relato de uma missa negra em Paris, uma aventura em lençóis um tanto frios mas sem o véu de nenhum disfarce sobre a sua sexualidade malsã. Mas também o escritor J.-K. Huysmans num ponto alto da sua obra. O que fez André Breton manifestar-se, nas primeiras páginas de Nadja, como grande devedor de um seu ensinamento: saber levar «ao extremo essa discriminação necessária, vital, entre o elo de tão frágil aparência que pode ser-nos do máximo socorro, e o aparelho vertiginoso das forças que se conjuram para meter-nos ao fundo». Além de J. K. Huysmans.

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    Felipe Correia Pimenta picture
    Felipe Correia Pimenta19/08/2016Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A presença do satanismo no mundo atual descrita de maneira impressionante

    Resenha escrita a partir da edição original em francês. Pouco conhecido no Brasil, o escritor francês Jori-Karl Huysmans colocou na forma de romance sua descida pessoal aos subterrâneos não somente da sociedade francesa do século XIX, mas também da própria alma humana. O romance Là-bas reproduz o tema do satanismo e sua presença em um mundo moderno já tomado pelo Positivismo. Aliás, o século XIX foi o século otimista e racionalista por natureza, mas a presença de algumas trevas da Idade Média ainda se faziam presentes. A Idade Média teve a extraordinária presença da heroína e santa Joana D’arc em seu ocaso. Foi uma época em que a religião estava presente em todos os aspectos da vida cotidiana. Época de santos e milagres, mas também, e é preciso recordar isto, de ignorância e sombras, como em todas as eras, portanto, não é surpreendente que, ao lado da figura de uma santa como Joana D’arc, tivéssemos também ao seu lado o diabólico Gilles de Rais. Uma época com tantos santos e tamanha fé deveria também possuir a presença marcante e sempre presente do Demônio. Sim, porque o Cristianismo sempre necessitou ter sua fé testada a todo o momento e, se eles desejavam a santidade, também precisavam da figura do Tentador. O que se resiste, persiste, ensina Carl Gustav Jung. Là-bas tem como personagem principal Durtal, que representa a máscara do próprio autor do livro. Durtal passa a estudar profundamente a Idade Média, especialmente o satânico Gilles de Rais, antigo companheiro de armas de Joana D’arc, e talvez o maior serial killer da história. Huysmans voltar-se-ia para o catolicismo durante sua vida, e Durtal busca algum tipo de significado voltando-se para o passado medieval. Foi uma época muito idealizada pelos românticos e até hoje é muito defendida pelo catolicismo. Durtal lê a história da vida e do julgamento de Gilles de Rais. O antigo soldado da Guerra dos Cem Anos não foi apenas- se é que podemos falar assim- um assassino e pedófilo, mas, e isto era o principal para a Igreja e a Inquisição, um adorador do demônio, necromante, herético e apóstata da religião cristã. Todos os abomináveis crimes de Gilles de Rais são enumerados através da leitura dos documentos de seu julgamento no século XV. A partir disto, Huysmans faz um paralelo com a sociedade francesa de seu tempo. Ele demonstra particularmente sua preocupação com a necromancia, que foi uma das principais acusações contra o demonismo de Gilles de Rais, e sua presença na França moderna através do espiritismo. O livro todo tenta alertar sobre a presença de um satanismo mais ou menos oculto no mundo contemporâneo de Huysmans, mas a necromancia é continuamente denunciada como abominável. Durtal, em determinado momento, percebe que o satanismo não desapareceu com a Idade Média, mas está presente ao seu redor. Como um dos personagens ensina, o satanismo não pretende que seus membros sejam todos papas ou cardeais de Igreja, mas sim que estejam em sua esmagadora maioria disseminados entre o abominável clero de então. O que diremos dos dias atuais, no qual boa parte do clero está envolvida com pedofilia? Através do personagem Dr. Johannes (que representa o satanista do mundo real Joseph-Antoine Boullan), Durtal é introduzido ao satanismo real e não teórico, restrito às descrições de livros e lendas. Já no final do romance, Durtal é testemunha de uma Missa Negra. Sem dúvida é o ponto alto do livro e a descrição é bastante forte e impressionante. O que gostaria mais de destacar no livro de Huysmans é o problema do Mal. Aparentemente temos a impressão de que o mundo positivista da modernidade provoca o aparecimento de tais fenômenos como o demonismo. Porém, se Huysmans estivesse um pouco mais atento, a França de seu tempo também é católica tal como a da Idade Média de Gilles de Rais. O satanismo ou qualquer tipo de aberração que se oponha à religião estão presentes muitas vezes tanto quanto a ortodoxia . A França da segunda metade do século XIX viu um grande reavivamento da religião católica. Foi a época de Nossa Senhora de La Salette e também das aparições de Lourdes. Talvez possamos associar o crescimento do satanismo com um maior progresso material da humanidade e a falta de um sentido maior para a vida . Possivelmente Gilles de Rais também não via maior sentido em sua existência apesar de toda inundação de religião que havia naquele tempo. Talvez o excesso de teologia e a falta de metafísica nos tempos atuais sejam os responsáveis por estes acontecimentos. Agora, o ser humano não mudou desde então, e seu lado obscuro continua o mesmo. Huysman captou bem isso na seguinte passagem do livro: “comme Gilles de Rais alors, qui demandait au Démon ‘science, pouvoir, richesse’, tout ce que l’humanité envie, dans dês cédules signées de son propre sang!” (Como Gilles de Rais, aqui, que demandava ao Demônio “ciência, poder e riqueza”,ou seja, tudo aquilo que a humanidade envia em seu tempo com a assinatura de seu próprio sangue). Là- bas é uma grande obra de Huysmans e consegue ser bastante sombria e instigante.

    1 curtida

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    Charles-Marie-Georges Huysmans

    Joris Karl Huysmans foi um escritor francês e crítico de arte, primeiramente associado a Émile Zola e ao grupo dos naturalistas. Depois, juntou-se ao Movimento Decadentista francês. Huysmans era "<i>um artista maior do que Zola</i>", segundo o crítico Ford Maddox Ford (1873-1939), no Marchas da literatura (1938): "<i>... (que) deixou as catedrais e as estradas deste mundo em 1907, e não suponho que se ouvirá, ao menos uma vez, em qualquer época, seu nome mencionado em reuniões literárias</i>". A conversão de Huysmans, do Satanismo ao Catolicismo, da obsessão por sensações bizarras à busca da vida espiritual, pode ser seguida em livros como À Rebours (1884), Là-bas (1891) e La Cathédrale (1898).

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    Charles-Marie-Georges Huysmans