Acredito que numa biografia a primeira coisa a se reparar é a qualidade da pesquisa em torno do biografado, neste caso Drummond, e depois qualidade da escrita, a fluidez e o interesse que o biógrafo desperta no leitor. O livro de José Maria Cansado é nestes dois aspectos perfeito. Nota-se a seriedade da pesquisa reconstituindo as origens da família de Drummond em Itabira, os primeiros anos de vida do autor, as relações familiares, o ingresso na escola, a mudança da família para Belo Horizonte, os primeiros poemas, o contato com os modernistas de São Paulo, o ingresso no funcionalismo público e saída do mesmo por divergências ideológicas, a mudança para o Rio de Janeiro, as amizades que cultivou ao longo da vida (Mário de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Pedro Nava, Rubem Braga etc) a vida familiar, as amantes de Drummond etc. Tudo isto numa escrita leve e lírica que consegue traçar interessantes paralelos entre a vida pessoal do autor e sua poesia sem com isso querer oferecer interpretações fechadas à obra. Além disso, a vida de Drummond corre paralela a um século muito importante de nossa história social / cultural / política e o poeta mineiro esteve atento a tudo isto, tomando parte, omitindo-se, contradizendo-se e oferecendo pistas importantes para entendermos nossos dilemas enquanto nação periférica.
(O livro também traz aquele gosto bom, aquela vontade de voltar as obras do autor, de rever sua fotobiografia, de reler Boitempo - série de poemas que tocam em questões da mitologia pessoal do autor. Este me parece ser outro ponto a ser pensado numa biografia: renovar o interesse pela obra do biografado. E nisto Cançado se sai muito bem).
Destaco que é uma biografia sempre citada pela crítica especializada de Drummond.